Antologia Trs Bodas e um Beijo
Three Weddings and a Kiss (1995)
Catherine Anderson,
Loretta Chase,
Lisa Kleypas
and
Kathleen Woodiwiss


Amor de Fantasia
Catherine Anderson













Disponibilizao e Traduo:Yuna
Reviso: Vanessa Veiga
Reviso final e formatao:Mare
Pesquisa: Yuna, Gisa, Mare e Rosie

Prlogo

       Clint Rafferty cruzou a passos largos a gasta calada de madeira em frente ao Golden Goose Saloon e abriu de par em par as portas de madeira. O interior caloroso
e ruidoso, recordou-lhe as vsceras do inferno que todos os domingos mencionava com voz trovejante o pregador Wells. Tal como esperava, o lugar estava repleto, como
era costume aos sbados depois das dez da noite, e o interior mal iluminado por uma lmpada fraca, a fumaa de tabaco, corpos sujos e perfume barato.
       Perto da porta, como posta ali para receber aos paroquianos, estava uma moa de vestido azul. Assim que viu Clint, sua boca pintada se curvou em um sorriso
e seus faiscantes olhos azuis se entrecerraram.
       - Est procurando companhia, vaqueiro? - perguntou, aproximando-se com dissimulao.
       Clint, que aos vinte e sete anos tinha ainda muito gravada a educao dada por sua me, inclinou a cabea em gesto corts:
       - No, senhora - disse, marcando as palavras. - Estou procurando meu irmo.
       - Tem certeza?
       Clint conteve sua impacincia. Embora no lhe importasse de que modo ganhava a vida esta rapariga suspeita, nem nenhuma outra, nunca teve necessidade de pagar
a ateno de uma mulher, sobretudo quando estava fatigado, faminto e em sua casa lhe esperavam ao menos duas horas de tarefas.
       - Tenho.
       Olhou alm da moa, para a barra. E,  obvio, ali estava Matthew, apoiado contra o brilhante mostrador, para sustentar-se, e o grosso cabelo rebelde lhe caa
em ondas midas sobre a testa. Pelo aspecto do moo, j estava empapado em lcool.
       Clint lanou um juramento por baixo.
       - Acaso so gmeos? - perguntou a moa, passando o olhar de um a outro dos vares Rafferty.
       As pessoas afirmavam, fazia anos, que ele e Matt eram quase idnticos, e Clint supunha que teriam um pouco de razo. Tinham o mesmo tipo de queixo quadrado,
mas do rosto altas, olhos de cor cinzenta e cabelo negro. Mas a terminava a semelhana. Quando Clint sorria, coisa que no acontecia com muita freqncia, ningum
se alterava. Mas quando Matt se iluminava com esse sorriso torcido e preguioso, o mundo inteiro parecia sorrir com ele, sobretudo a metade feminina, e a grande
parte desta metade tambm lhe abriam os joelhos. Nesse mesmo momento, uma mulher estava pendurada no brao de Matt: uma bonita ruiva de enormes olhos verdes. Respondia
pelo nome de Doura Faye, se Clint recordava bem.
       - Tirei-lhe sete anos - explicou a rapariga, surpreendendo-o.
       No tinha sentido acrescentar que tinha passado esses sete anos tratando de ser me e pai, tanto para o Matthew como para os outros irmos.
       - Ento esta  sua noite de sorte - murmurou a moa, - porque casualmente eu sou aficionada por homens altos.
       - Obrigado pela oferta, mas tenho fome, devo alimentar os cavalos e garantir que fecharam as contas do dia - cortou-a Clint, antes que a garota tivesse tempo
de sugerir que pedisse um gole para os dois.
       Olhou-o, desiludida, mas depois encolheu o ombro nu:
       - A oferta fica aberta. Bastar que pergunte por Maydeen.
       - F-lo-ei qualquer hora.
       Clint foi em direo a Matthew, abrindo caminho entre os corpos que se moviam. Ultimamente as bebedeiras de Matt se repetiam todas as semanas. Maldito moo.
Clint conhecia a debilidade dos vares Rafferty pelo lcool. Acaso no estava Matt ao lado dele quando baixaram o seu pai  sepultura, fazia cinco anos? Pelo amor
de Deus, o velho tinha bebido at morrer, por no falar que, por culpa dessa bebida, deixou seus filhos sem um centavo! Como no puderam cancelar os pagamentos da
hipoteca, perderam o antigo lar da famlia em Ohio e, se no se mudassem para o oeste para procurar terras onde instalar seu lar, teriam ficado sem um teto sobre
suas cabeas. Por fim, com o suor de todos, comeavam a recuperar-se, e no graas ao pai... E agora Matt seguia seus passos!
       O primeiro impulso de Clint foi agarrar seu irmo pelo pescoo e sacudi-lo. Mas se conformou em abrir caminhos com cotoveladas at chegar a seu lado e apoiar
o salto de uma bota no trilho.
       - Matt, a reunio de boiadeiros j terminou. Acredito que seja hora de pensarmos em voltar para casa.
       Matt se voltou sem pressa, os olhos cinza azulado um pouco fora de foco, a boca, geralmente firme, agora com comissuras:
       - Clint? - quis saber, em um tom que revelava sua incerteza.
       - Tem outro? - Clint no pde conter um sorriso, e agitou uma mo ante o nariz do seu irmo - Est a, Matthew?
       - A ltima vez que me fixei, estava. - Matt soluou, e sorriu  mulher que estava do outro lado - Esta bela dama teve a amabilidade de me convidar para um
gole, no  assim, querida?
       Doura Faye jogou um olhar ao semblante do Clint:
       - Boa noite, senhor Rafferty - disse, em tom assombrosamente humilde - No sabia que voc tambm estava na cidade.
       - O velho Clint veio a uma reunio com os outros tipos importantes - brincou Matt, com lngua esponjosa - No  assim, irmo?
       - .
       Matt passou a lngua pelos lbios e franziu o sobrecenho.
       - No acreditei que freqentasse lugares como este.
       - Em geral, no o fao. Isso no significa que nunca o faa.
       Clint deu uma olhada ao copo de usque de seu irmo. Pelo amor de Deus: no uma medida, um copo e, alm disso, meio vazio! O que menos necessitava Matt era
mais licor. Movendo-se com rapidez para que seu irmo no tivesse tempo de antecipar-se ao que faria, Clint se apoderou do copo.
       - No se incomoda de compartilhar, verdade? A velha garganta est um pouco seca.
       Quando a mo do Clint se fechava em volto do copo, Doura Faye fechou o punho.
       - Senhor Rafferty. - Inclinou a cabea indicando a jarra de usque - Me deixe servir sua prpria bebida. H muito mais que isso.
       No era esse, precisamente, o problema? Lanando um olhar desanimado, Clint viu que tinha sido esvaziado trs quartos da jarra. No era de estranhar que Matt
estivesse bbado.
       - No me incomoda beber no mesmo copo - confiou  moa. - Alm disso, tenho a impresso de que ele j bebeu muito.
       Por um instante, pareceu-lhe que a mo da moa apertava seu punho. Mas logo, com um sorriso nervoso e um chiado dos olhos cinza murmurou algo baixo que Clint
no conseguiu entender. Fazendo com o copo o gesto zombador de brindar, Clint tomou o licor e apertou os dentes quando sentiu a queimao.
       - No est mau.
       Agarrando a garrafa, Matt se serviu de outra medida de usque, parte da qual derramou pela borda do copo e caiu sobre o balco.
       - Vamos, Clint divirta-se. Como diz Doura Faye h muito mais.
       Embora Clint pudesse ter passado sem outro gole, tampouco queria que seu irmo consumisse o que ficou na garrafa. Sem apresentar objees, bebeu o segundo
copo e no disse nada quando Matt o encheu outra vez. Por desgraa, quando deixou o copo apoiado a terceira vez, Matt pediu ao taberneiro outra jarra.
       - Deixa Matt... J bebeu muito - sugeriu Clint, com voz suave - Terminemos por hoje, companheiro, e vamos a casa.
       - No se faa de me comigo, irmo mais velho. Sou um pouco grande para que me considere tanto.
       - A ltima coisa que me ocorreria  considerao. - Clint colocou uma mo no ombro de seu irmo, e o sacudiu um pouco. -  tarde, e ns dois tivemos um dia
atarefado.  melhor agora irmos para casa, de acordo? Acendemos o fogo, preparamos um pouco de caf. Para variar, seria agradvel.
       - V voc. - Matt passou um brao pela cintura de Doura Faye. - Como diz o velho ditado, a noite ainda  uma criana. - A mida garonete o sustentou para
que no casse quando passou o peso do corpo para ela e saiu  do bar - Pela manh, estarei em casa, Clint. Acordado e a tempo, e em condies de trabalhar, eu juro.
       Clint sabia o que ia acontecer. Depois de uns goles mais, Matt se deitaria e dormiria at as ltimas horas da manh, depois ficaria com o  estmago revolto
e uma terrvel dor de cabea.
       - O que acontece  que gostaria de ter sua companhia para cavalgar at nossa casa - aventurou Clint - Quando no estamos trabalhando, quase no estamos juntos.
       - Possivelmente na prxima vez - sugeriu Matt. Com isso, inclinou-se para mordiscar a orelha de Doura Faye. Para impedir que cassem os dois juntos, Doura
se apoiou contra ele com todo seu peso. - No , doura? - perguntou o jovem, - O que acha de irmos ao andar de cima?
       Clint tirou a mo do ombro do irmo.
       - Bom, creio que vou.
       Matt, que tinha trocado a orelha de Doura pelo pescoo, no se incomodou em lhe responder. Com o corao pesaroso, Clint no se decidia a partir, entretanto
sabia que Matt tinha idade suficiente para tomar suas prprias decises. Por fim, ao ver que o irmo pedia ao taberneiro outra jarra, voltou-se. Para bem ou para
mau, Matt deveria arrumar-se sozinho.
       Abrindo com o ombro a porta de madeira, Clint saiu  calada e fez uma funda inspirao para serenar-se. Entretanto, em vez de limpar-se, pareceu-lhe que
a cabea se nublava mais ainda e chegou  concluso de que era por causa do usque, que raramente bebia.
       Deixou as portas balanando-se a suas costas e dobrou  esquerda pela calada. Seus saltos tocaram uma melodia oca sobre a madeira gasta. Dentre os edifcios
saam franjas de luz da lua que raiavam a calada marcando o avano do homem.
       Olhou para a rua principal e viu que havia poucas janelas iluminadas. Era quase meia-noite. A maioria das famlias j se retirara para dormir. Clint se sentiu
triste e vazio por dentro. Dentro de pouco tempo os Rafferty tambm estariam dentro de sua prpria casa, na cama.
       Quanto tempo fazia? Fechou com fora os olhos e recordou como era sua vida quando seus pais estavam vivos. Comidas caseiras, maravilhosas. Cortinas de encaixe
nas janelas. Risadas. Tinham passado seis anos da morte da me e cinco desde que o pai foi se reunir com ela. Na realidade, no era tanto tempo, mas para Clint,
que precisou assumir a responsabilidade para com os irmos menores, era uma eternidade.
       Deteve-se frente a uma loja e olhou os objetos expostos na cristaleira iluminada pela lua com dolorida nostalgia. Bess Harrison, a esposa do proprietrio,
era muito hbil com as mos e tinha construdo uma cozinha em miniatura do outro lado do cristal. A alegria da cena o fez pensar, por contraste, no ambiente triste
e austero que o esperava em sua prpria casa. Nenhuma cozinha alegre, nada de decorao, nem flores, nem cortinas de encaixe. Para que uma casa fosse acolhedora,
necessitava do toque feminino, e isso era o que faltava no lar dos Rafferty.
       Clint se perguntou, e no pela primeira vez, se no devia se casar.
       Talvez Matt no se visse impulsionado a ficar tanto tempo na cidade, se a casa fosse mais agradvel. Desde que se instalaram no Shady Corners, Clint tinha
obtido muitas coisas, mas a maioria das melhorias estava relacionada com a terra. A casa necessitava de reparos, e Cody, seu irmo de seis anos, de uma me. At
o Daniel, o irmo de quatorze anos, manifestava sinais de se tornar um pouco selvagem, e Clint deduziu que se devia ao fato de ele no ter talento para educar os
meninos. Mas, maldio! Era um rancheiro, no uma bab. Sabia de vacas e de cavalos e s vezes sabia como fazer com que os preguiosos de seus irmos se movessem.
Mas Cody e Daniel ainda sofriam de pesadelos relacionados com a morte dos pais, e Clint no sabia como acalm-los nem aplacar os mpetos que era incapaz de compreender.
O pior de tudo era as noites, quando Cody chorava at dormir, de pura misria, e Clint no sabia como consol-lo. Essa era uma das principais razes de ter escrito
a sua av Hester, uns meses atrs. Era uma mulher bondosa que nunca tinha sido abenoada com filhos prprios. Agora estava viva, e Clint esperava que tivesse interesse
em vir de Ohio para comear uma nova vida com eles, no Oregn. Entretanto, at o momento no tinha respondido  carta e, como tinha passado tanto tempo, Clint comeava
a duvidar que ela o fizesse. E isso o levava de novo ao pensamento original, ou seja, que talvez devesse se casar.
       Recomeando seu passeio pela calada, tratou de imaginar como seria voltar a ter a uma mulher em casa. Sups que seria melhor. Certamente muito melhor. Sem
dvida, seria bom voltar para casa ao anoitecer e encontrar uma comida quente, caseira, e no seria nada mal que algum lavasse as roupas  durante o dia. Sendo oito
pessoas, a pilha de roupa sem lavar recordava uma montanha. Sim, era indiscutvel: ter uma mulher em casa representaria um grande avano.
       Entretanto, a julgar pela sorte de Clint,  ultimamente nenhuma das jovens elegveis prximas estava interessada em encarregar-se de uma famlia to numerosa,
j existente, sem contar que estava composta de vares rudes, e sups que seria obrigado a conformar-se com uma moa de virtudes domsticas que ningum quisesse.
       Era uma idia pouco atraente.

1

       Com o corao pulsando na garganta, Rachel Constantine observou a sua iminente vtima quando passou frente a ela, pela calada da frente. Teria gostado de
v-lo cambalear um pouco, algo que assegurasse a ela que, com efeito, tinham-no drogado. Tal como estavam s coisas, era difcil supor que tinha bebido sequer.
       Com um suspiro, tirou os culos de aro metlico e os meteu no bolso da saia. Desde esse momento, teria que conformar-se vendo o senhor Rafferty convertido
em um borro. Mas era prefervel antes de arriscar-se a ser vista usando culos.  maioria dos homens no se atraa por damas de viso fraca, e, ao menos essa noite,
era de vital importncia que Rachel fosse uma mulher fatal. "Maldita seja!", pensou. "Por que parece to sbrio?" Algo teria sado mal no bar? Possivelmente no
estivesse drogado, afinal. S idia acelerou o pulso e afrouxou os joelhos. Mordendo o lbio, deu um olhar ao salo e viu com alvio que Doura Faye, dentro das portas,
fazia o sinal combinado para lhe comunicar que tudo tinha dado certo. A menos que Matt tivesse a constituio de um boi, em poucos minutos estaria inconsciente.
Rachel sorriu na escurido. De seu esconderijo nas sombras, no convinha responder  saudao de sua amiga, e por isso se props passar pelo botequim no dia seguinte,
para agradecer fervorosamente a Doura Faye. Sem sua ajuda, nada disso seria possvel.
       Ao afastar-se da loja, Rafferty diminuiu o passo e se deteve; sua figura se refletiu contra o cristal banhado pela lua. Rachel entrecerrou os olhos para v-lo
melhor e desejou no t-lo feito. Era mais alto do que recordava talvez um pouco mais largo nos ombros e no peito. "No  mais que um engano provocado pela luz da
lua e as sombras", tentou tranqilizar-se. "No deixe que os nervos a perturbem."
       Por desgraa, no era to simples. Matt Rafferty era um indivduo problemtico, indubitavelmente, muito afastado do tipo de homem que podia abordar uma jovem
decente sem certos escrpulos. De qualquer modo, no se podia permitir que o homem fosse por a humilhando s moas jovens e lhes destroando o corao. Pelo menos,
merecia que o censurasse. Como sua prpria irm de quatorze anos, Molly, era a ltima vtima, a Rachel pareceu que era seu dever fazer isso mesmo. Da o plano que
arranjou com ajuda de Doura Faye.
       Seguro como a mula de um buscador de minas, Rafferty desceu da calada e cruzou a rua. Vendo-o vir para ela, Rachel sentiu que sua boca secava. Era ele. Repassou
a lista do permitido e do proibido que lhe deu Doura Faye e saiu da sombra do armazm.
       - Caramba, ol, senhor Rafferty! - exclamou, ensaiando um coquete gorjeio - Que agradvel surpresa!
       Foi evidente que o surpreendeu, pois ele diminuiu o passo e se deteve lentamente. Rachel sabia que, sem os culos, tinha um ar muito formal, ento tentou
no abrir muito os olhos.  medida que cortava a distncia entre eles, os contornos difusos do homem se definiram melhor: no restava dvida, o sujeito era bastante
maior do que estava disposta a admitir.
       - Rachel Constantine, a filha do delegado?
       Lanando uma risada gutural, como lhe tinha ensinado Doura Faye, disse:
       - Quantas Rachel Constantino acredita que h em Shady Comers, uma dzia?
       A pergunta pareceu confundi-lo. Era bvio que seu processo de pensamento estava um pouco turvado, sinal de que a valeriana que Doura tinha posto no usque
fazia efeito.
       Aproximou-se at ficar a poucos passos dele e adotou uma pose sedutora. Era difcil recordar tudo o que Doura Faye tinha ensinado: como mover-se, parar e
sorrir.
       - Acredite-me, senhor - ela falou com voz cantada e aguda, - h s uma Rachel Constantine. Meu papai diz que, depois de me fazer, quebraram o molde.
       Imediatamente, desejou retirar aquelas palavras. As mulheres irresistveis no mencionavam os seus pais. At ela sabia.
       Embora j fizesse quase um ano que os oito irmos Rafferty viviam na regio, a vista de Rachel era to ruim que nunca tinha tido a oportunidade de se aproximar
o suficiente para ver bem a nenhum deles. Teve a impresso de que as fofocas no tinham cessado jamais, com todas as lnguas dizendo que eram to bonitos, e ela
estava muito impaciente por ver se havia motivo para tanto escndalo.
       No que tivesse interesse pessoal.  Deus obrigado, no. Estava interessada por Lawson Wells, o filho do ministro. Alto, incrivelmente magro e quase to cego
como ela mesma, era to pouco bonito como podia s-lo um homem. Em conseqncia, era doce, educado e afetuoso, todas as qualidades que, sem dvida, Matt Rafferty
no possua, porque certamente era muito bonito para preocupar-se por isso. "Malditos sejam os homens bonitos!", era o lema de Rachel.
       Mesmo assim, sentia curiosidade. Com risco de parecer mope inclinou-se para ele para poder ver o rosto com mais clareza e julgar por si mesma. Indubitavelmente
era bonito. Um pouco maior do que esperava, mas sups que se deveria ao trabalho ao ar livre e  bebida, que o fazia parecer mais velho.
       Inclusive assim, obscurecidos pelo chapu, seus olhos azul cinzento reluziam  luz da lua como gotas de gua atravessadas por um raio. Seu espesso cabelo
de cor bano caa em ondas lnguidas sobre sua testa, e parecia muito torrado pelo sol, se era a cor real da pele ou um truque da luz. Tinha um ar letal, algo que
a induziu a ser cautelosa. Perigoso. Matt Rafferty no era s sonhador, como o descreviam os falatrios. No era de estranhar que a pobre Molly tivesse ficado doda
de dar pena.
       A Rachel no agradou o modo como a observava: um lnguido escrutnio dos olhos reluzentes, como se estivesse divertindo-se com uma brincadeira ntima. No
coincidia com os relatos que tinha ouvido a respeito de que era um sedutor. Mas a fazia sentir-se incmoda e bastante assustada, coisa que remetia ao irmo maior,
Clint. Esse sim  um homem que terei que evitar, sempre srio, que jamais sorria. As amigas lhe contaram que seus olhos azuis cinzentos eram capazes de queimar uma
mulher. Ao terminar o lento escrutnio de sua pessoa, Matt procurou o olhar de Rachel e disse com voz profunda, sedosa:
       - Esse deve ter sido um molde estupendo.
       Rachel se sentiu perplexa e tratou de entender o comentrio. Em sua confuso, esqueceu de cuidar para no abrir muito os olhos. Caramba, que atraente era!
No a surpreendia que a pobre pequena Molly tivesse se apaixonado.
       - Como diz?
       Em sua boca firme apareceu um sorriso.
       - Lembra-se do molde que quebraram depois de faz-la? A julgar pelos resultados, deve ter sido um molde estupendo.
        Horrorizada, Rachel lanou uma breve gargalhada.
       - Esse molde. Passou tanto tempo que... Bom, tinha-o esquecido por completo.
       Compreendeu que estava tagarelando como uma louca e sublinhou a tolice com outra risada aguda.
       - O que est fazendo fora, a esta hora da noite? As meninas boas como voc tem que estar na cama, com as mantas at o queixo.
       Vindo de qualquer outro homem, o termo "menina" a teria enfurecido. Com seus dezoito anos, ainda era uma recm chegada  feminilidade, e por isso se ofendia
com facilidade se algum insinuava que ainda no era adulta. Mas no com Matt Rafferty. Comparado com ele, aos dezenove anos seria uma criatura.  luz prateada da
lua, suas faces inflexveis e muito masculinas, pareciam esculpidas em mogno polido e lhe conferiam uma dureza que acelerava o pulso da moa.
       - Possivelmente no seja to boa menina como voc me considera.
       Tocando a borda do chapu com um dedo, o homem jogou a aba para trs e arqueou uma de suas negras sobrancelhas.
       - Srio?
       Rachel colocou a mo no bolso, curvou os dedos sobre os culos e elevou o rosto. Envolvida em um antigo ressentimento, olhou-o furiosa, na penumbra, recordando
o outro homem que riu dela.
       - Observei que as meninas boas no se divertem muito.
       - Est certa - admitiu, com sorriso lnguido, - mas a maioria das meninas no sabe o que perdem.
       - Bom, eu sei.
       A julgar pelo modo como curvou uma comissura da boca, a afirmao o divertiu.
       - Ah, sim? E quem foi o afortunado?
       Rachel no entendeu o que tinha que ver com tudo isso um afortunado.
       - Como?
       A risada do homem foi um murmrio rouco no fundo de seu peito.
       - Senhor Rafferty,  por acaso uma brincadeira pessoal, ou a compartilhar comigo?
       - Em realidade, no  nada. O que acontece  que j respondeu a minha pergunta.
       - Que pergunta?
       - Se voc sabia ou no o que estava perdendo. Tenho a impresso de que no.
       Rachel elevou um pouco mais o rosto.
       - Se no fosse assim, ento, por que estou aqui?
       - Boa pergunta. Incomodar-lhe-ia me explicar?
       - Porque eu estou cansada de levar uma incmoda existncia,  por isso.
       Sua boca completa, mas firme se curvou outra vez em comissura. O sorriso no se desvaneceu ainda quando bocejou. Beliscou a ponta do nariz e sacudiu a cabea.
Quando voltou a olh-la, tinha os olhos um pouco desfocados.
       - Ento est cansada de sua existncia to aborrecida, verdade? Por que ser que tenho a impresso que voc quer que eu ponha um fim nisso?
       - Possivelmente porque  assim. - Rachel comps um sorriso provocador e tratou de no pensar em como corria o tempo. - Quem melhor que voc para uma garota
que busca uma experincia excitante? Ouvi dizer que voc  um tipo despreocupado e sempre disposto  diverso.
       - Deve ter me confundido com outra pessoa, querida. A despreocupao no existe em meu vocabulrio, sobretudo se provier de voc. Odiaria que me prendessem,
sabe? Teria que estar louco para me envolver com a filha de Big Jim Constantine.
       - No me diga que teme meu pai!
       -  claro que sim. - Em sua boca apareceu outro sorriso malicioso, que exibiu uns dentes perfeitos, brancos e direitos. - E continuarei temendo enquanto usar
essa insgnia.
       - Mas, senhor Rafferty, meu pai nunca saber disso. Dou-lhe minha palavra.
       - No saber por que no haver nenhum "isso" - afirmou, com uma gargalhada.
       Levada a audcia por puro desespero, Rachel se aproximou mais do homem. Recordando as instrues de Doura, colocou um dedo na abertura de sua camisa. Foi
capaz de notar a dureza incrvel do ventre plano sob os dedos.
       Tratando de recordar tudo o que lhe havia dito a amiga, cantarolou:
       - Sei que isto lhe parecer terrivelmente atrevido, mas no posso evit-lo. Desejo-o, senhor Rafferty.
       O sorriso dele se alargou.
       - Como diz?
       Duvidando que se agradasse da sensao de fazer ccegas nos mamilos ao roar a camisa do homem com seu suti, Rachel se aproximou mais.
       - Que o desejo. - Fez uma pausa, enquanto tentava recordar as coisas que lhe tinha sugerido Doura. - Faa o que tenha que fazer. Fundo e lento, ou duro e
rpido. Possua-me do modo que preferir.
       Riu outra vez.
       - Est bem, morderei o anzol. Por qu?
       A resposta foi to inesperada que o corao do Rachel deu um tombo.
       - O que?
       Sublinhando cada palavra, como se falasse com uma imbecil, repetiu:
       - Por que me deseja?
       Entre todas as perguntas que Doura tinha previsto que o homem podia formular esta no figurava. Para falar a verdade, Rachel no tinha idia de por que uma
mulher poderia sentir-se atrada por ele. Certamente, era bonito, mas tambm aterrorizante.
       - Porque voc me fascina - resmungou, o que era a absoluta verdade.
       Fascinava-a... De um modo mrbido.
       - Por que a fascino?
       - Porque voc  excitante.
       A luz da lua bastou para que visse que os olhos dele faiscavam. Ria no seu rosto.
       - Mais excitante do que voc pode manipular. V para sua casa, tesouro. Se quiser cravar os dentes em algum pobre, faa-o em seu pequeno amigo, Lowry, o filho
do ministro. Ele no devolver a dentada. Eu talvez sim.
       - Seu nome  Lawson. E no  o que me interessa.
       Ele tocou a asa do chapu.
       - Boa noite, descarada. Valeu o oferecimento.  muito generoso, e a proposta mais doce que jamais me foi feita. Mas, por desgraa, terei que recus-la.
       Dito isso, comeou a afastar-se. Rachel viu que cambaleava um pouco e depois se endireitava. Transbordada pelo desespero, sabendo que podia perder a oportunidade
para sempre a menos que atuasse com rapidez, segurou-o pelo brao.
       - Por favor, no se v! Por favor!
       O homem girou em torno e desta vez falou em tom srio:
       - Rachel, disse para ir para sua casa. - Fez uma pausa, para lhe dar tempo de entender. - Se for prudente, ir correndo, no caminhando. Pelo modo como comeo
a me sentir, eu diria que bebi um pouco demais, e voc  bastante tentadora. No tenho a cabea muito limpa. Quando um homem no pode pensar com clareza, no tem
tanta fora de vontade como deveria. Se insistir,  provvel que aceite o oferecimento. E amanh ambos lamentaremos, sobretudo voc.
       Rachel quis dizer que ele  que o lamentaria.
       - O que posso fazer para faz-lo mudar de opinio? - Apertou o corpo contra o dele. - J me lancei a seus ps. No me humilhe mais ainda indo-se.
       - Cristo!
       Com os dentes apertados, os msculos da mandbula crispados, o homem fechou os olhos com fora.
       Rachel se esfregou contra ele com mais insistncia.
       - Por favor!
       - Maldio, menina - disse, em voz rouca. - Se brincar com fogo, queimar.
       - Oh, sim, se voc for o fogo, quero me queimar! Por favor, quero...!
       O homem segurou-a apertadamente pela cintura com um brao e colocou sua boca na dela. Por um instante, Rachel no soube o que tinha acontecido. Lentamente,
pouco a pouco, sua mente perplexa foi registrando as sensaes: a boca dele, quente e sedosa, apertada firmemente contra a dela; o brao apertado em torno de sua
cintura; a mo do homem, aberta sobre suas costas; as pontas dos dedos, em seu flanco; as coxas duras como ao apoiados nas dela. O fogo no  suficiente para descrever
Matt Rafferty, mas sim um inferno ardente. Sentiu como se estivesse a ser consumida. S na semana anterior, por fim, tinha permitido que Lawson a beijasse. As tcnicas
dos dois homens se pareciam tanto quanto leite morno e suco de pimenta. Nos braos de Lawson, Rachel tinha se sentido segura e um tanto aborrecida. Nos de Matt,
sentiu-se como se estivesse pendurada sobre um precipcio e ele fosse o nico lugar em que pudesse se segurar. O beijo era duro e exigente. Este homem no tinha
nem indcio de acanhamento ou vacilao, s frrea deciso. Por instinto, Rachel elevou as mos para empurr-lo e sentiu o peito cheio de msculos, rgidos sob uma
camada de pele masculina, firme, mas flexvel. O tronco de Matt era como um muro de granito que lhe esmagava os seios e a obrigava a sentir a aguda conscincia de
que seu prprio corpo era muito mais sensvel e vulnervel que o dele.
       Quando por fim se separou, Rachel ofegou, agitada, e sua expresso foi de assombro.
       - Ainda est segura de que quer se queimar? - perguntou resmungo. - Advirto-lhe: pense bem antes de responder, pois h um ponto do qual j no se pode voltar,
sabe? E eu j o alcancei... Quase.
       Nesse momento, ocorreu a Rachel que ele a tinha beijado com tanta fora de propsito para assust-la, e que agora esperava que fugisse. Bom, ela no se assustava
com tanta facilidade. Claro que ele queimava, mas graas ao usque condimentado com um pouco de valeriana, a chama logo se extinguiria. Na altura que estava, a nica
coisa que podia fazer era ser chamuscada um pouco pelas bordas.
       - Oh, sim - sussurrou a moa. - Ainda quero me queimar.
       Por um instante, ele vacilou, esquadrinhando-a com o olhar como se procurasse respostas. Logo, como se as tivesse achado, inclinou a cabea, e posou outra
vez a boca sobre a de Rachel, agora com mais suavidade, mas, por isso mesmo, com um efeito mais devastador.

2

       Seda mida. Fogo frio. Chamas de gelo lambiam a pele do Rachel, fazendo-a arder e tiritar.
       - Abre os lbios, carinho - disse Matt em um sussurro apressado, contra sua boca.
       Temerosa de negar, pois se o fizesse, ele adivinharia que a seduo no era mais que um estratagema, fez o que ele pedia. E o que sentiu a seguir foi que
a lngua dele tinha avanado alm de seus dentes. Sentiu uma tenso pelo corpo, e suas mos se transformaram em punhos na frente da camisa de Matt. Como se tivesse
percebido seu alarme, ele a afastou um pouco e mordiscou com delicadeza o lbio inferior.
       - Tudo bem, confia em mim.
       Rachel teria preferido confiar em uma vbora, mas no fundo, toda a feminilidade nela respondeu ao timbre spero de sua voz. Quando a beijou outra vez, separou
os lbios e o permitiu que gozasse de sua boca. Matt avanou sobre a carne sensvel, fazendo ccegas no cu da boca e atacando a lngua de Rachel, empurrando-a numa
dana rtmica que provocou uma contrao no estmago e um estranho comicho no ventre dela.
       Essa sensao desconhecida a assustou, mas, quando tentou pr fim ao beijo, descobriu que Matt segurava sua nuca com uma mo. Recordou a advertncia de que,
passado certo ponto, j no se podia retroceder. Lutando contra o pnico, recordou que logo o homem perderia a conscincia, mas, por alguma razo, essa idia no
a tranqilizou. O fogo de um relmpago podia cobrir um grande trecho em poucos minutos.
       A respirao do homem se tomou irregular pelo desejo e, quando Rachel se retorceu para soltar do abrao, do fundo da garganta de Matt brotou um gemido trmulo
e afogado. Outra onda de pnico a assaltou, quando ele passou a mo do ombro para as costas e seus dedos exploraram a forma do seu seio e se aninharam em seu vrtice.
O contato a fez sobressaltar e, por fim, conseguiu separar sua boca da dele.
       - Cristo - murmurou o homem contra sua bochecha. Sentiu contra sua pele cada baforada de flego, quente e mida como o vapor do caf. Atravs de vrias camadas
de tecido, apoderou-se do mamilo endurecido, puxando, fazendo girar a carne sensvel. Estas sensaes deixaram Rachel to perplexa que no podia respirar, e menos
ainda protestar. - Ah, carinho - disse com voz rouca, contra a tmpora da moa. - Quero pr minha boca.
       A situao da mo no deixava lugar a dvidas na mente de Rachel a respeito de que parte de sua anatomia ele se referia. S essa idia a perturbou.
       - Aposto que  to doce como mel ao sol.
       A imagem que comeou a formar-se na mente de Rachel era to indecente que teve vontades de lhe dar um chute. Como se atrevia a sugerir sequer...! Bom, nenhuma
mulher nem dama nem da outra classe se comportava de maneira to escandalosa. Separou com um puxo a mo de seu seio. Como no se atreveu a revelar o que em realidade
pensava, conformou-se dizendo:
       - Senhor Rafferty, estamos no meio da rua, e algum poderia nos ver.
       - Bom, procuremos um lugar mais ntimo - murmurou ele, perto da orelha. - No  todo dia que Rachel Constantine me suplica que faa amor com ela.
       Ao menos nisso no se equivocava. Manobrando com cautela, conseguiu pr certa distncia entre os corpos. Com as bochechas ardendo, custou-lhe sustentar o
olhar, de modo que enfocou a vista no nariz do homem. At em baixo dessa pobre luz, pde ver que tinha um sinal na ponta do nariz. Perguntou-se se a teria quebrado
em uma briga. Era provvel, tendo em conta sua reputao.
       - Que se formos  igreja? - sugeriu agitada.
       - Aonde?
       Pelo tom escandalizado, soube que tinha entendido bem.
       -A igreja - repetiu. -  o lugar mais privado que poderemos encontrar.
       - A igreja? - lanou uma gargalhada aguda. - No sou o que poderamos chamar um tipo melindroso, mas esse no me parece um lugar apropriado.
       - Mas claro que  apropriado. Quase perfeito, poder-se-ia dizer! Pense: a quem ocorreria ir a esta hora da noite de sbado? At o pregador Wells est em sua
casa, deitado.
       -  certo, mas...
       - Imagine todos esses bancos, esses preciosos assentos vazios nos esperando. Deve estar escuro ali dentro. Podemos passar horas e horas de intimidade sem
interrupes. - Ao falar de intimidade, Rachel fechou os olhos com fora um segundo e pronunciou para si uma prece desesperada, para que o homem no fosse difcil.
- Ser maravilhoso, logo ver.
       Matt percorreu o contorno da orelha dela com a ponta da lngua.
       -  que no me parece bem fornicar em um lugar sagrado.
       Entre tudo o que Rachel tinha previsto, no lhe ocorreu que Matt Raffety tivesse escrpulos. Pensou com rapidez e disse:
       - Ora, pintura e madeira, isso  tudo. O que faz sagrado ao edifcio so as pessoas que se renem dentro, e no a estrutura sozinha. Se a gente se juntasse
para rezar em um abrigo, seria igualmente sagrado.
       - Um abrigo?
       - Ou qualquer outra construo. Confie em mim: se usarmos a igreja, a Deus no importar nem um pouco.
       - Por que ser que tenho a sensao de que est decidida a faz-lo em um banco da igreja?
       Rachel comps um sorriso malicioso e deu um passo para trs.
       -  uma idia maravilhosamente perversa, no  certo? E ah, tenho muitas vontades de ser perversa. Deliciosamente perversa... contigo.
       Teve a impresso de que ele comeava a apoiar mais seu peso nela.
       - Ento, vamos - disse o homem. - Ah, e ao mesmo tempo, forte e rpido.
       - O que?
       - Forte e rpido - repetiu Matt. Aproximando mais o rosto enquanto falava. - Deixou escolher, lembra-se? fundo e lento ou duro e rpido. Prefiro duro e rpido.
       Rachel o empurrou pelos ombros, mas era como tratar de conter a uma montanha.
       - Ei... Senhor Rafferty. - Virou o rosto para que os lbios quentes e sedosos aterrissassem inofensivos, na orelha outra vez. Ou no to inofensivos: ele
pegou o lbulo entre os dentes e... Rachel conteve o flego. Oh, Deus querido, estava lhe chupando o lbulo da orelha. - Senhor Rafferty - insistiu, contendo o pnico.
- Aqui fora no. Temos que ir  igreja lembra?
       - Ah, sim...
       Endireitou-se com tanta brutalidade que cambaleou, arrastando-a com ele. Rachel o abraou pela cintura e lutou para recuperar o equilbrio, aterrorizada ante
a perspectiva de que Matt casse. Se casse em cima dela... Bom, estaria em um apuro, sem dvidas. O homem media mais de um metro e oitenta de altura e, certamente,
pesava uns quarenta quilos a mais que ela.
       - Mostre o caminho, senhora. - afastou e fez uma reverncia insegura com o chapu. - Creio que fazer amor com uma dama to bela ser um prazer para mim.
       Rachel segurou seu brao, ajudou-o a colocar de novo o chapu e encaminhou-se para a igreja, incumbncia que, logo compreendeu, levaria muito mais tempo do
que tinha calculado. Para cada passo para frente, Matt Rafferty dava entre dois e doze em direo ao lado, arrastando com ele Rachel.
       A cada momento que passava, a possibilidade de que cassem na rua se fazia mais ameaadora. Se isso ocorresse, poderia tirar as calas dele e deix-lo dormindo,
onde casse, mas de maneira nenhuma seria to satisfatrio como fazer com que despertasse na igreja. Depois de ter rechaado publicamente Molly, merecia um castigo
similar, acompanhado da humilhao. Enquanto pensava, Rachel sentiu que cambaleava outra vez. Surpreendeu-a um pouco o modo como o sedativo comeava a afet-lo nesse
momento. Matt passou o brao pelos seus ombros, para sustentar-se.
       - Acredito que estou bbado. No um pouco, mas muito.
       - Srio? - perguntou, fingindo-se incrdula.
       - Meus sentimen... sendimi... merda, no posso nem falar direito.
       - Sentimentos? - pronunciou.
       Matt estalou os dedos, quase arrancou o nariz ao faz-lo e comeou a rir.
       - Sente-e-mentos. Meus senti-mentos exatamente. J no me lembro quais eram meus sentimentos.
       Rachel o olhou e sorriu, apesar de si mesma. Por ser um tipo baixo, perigoso, um canalha sem corao, tinha o seu. Chegou  concluso de que, em parte, devia-se
a esse sorriso inclinado, to de moo, enternecedor, que contrastava com as faces de planos duros. Alm disso, os olhos  obvio, que sempre pareciam faiscar.
       - Estava comentando que talvez estivesse bbado - recordou-lhe.
       - Velho caramba. - Estalou outra vez os dedos. - Com trs mseros goles...
       - Talvez tenha perdido a conta e bebeu mais que isso.
       - No. Nunca bebo mais que isso.
       Essa declarao foi uma surpresa para Rachel. Se as histrias que tinha ouvido no eram falsas Matt Rafferty freqentava o Golden Goose todos os sbados de
noite e bebia todo o tempo, jogava cartas e se divertia sem restrio. Certamente no era um homem moderado.
       - Oh, vamos, a mim pode dizer. Voc deve secas as fontes, no  assim?
       Matt negou com a cabea.
       - No. No sou muito inclinado a beber.
       - Desde quando? - perguntou a moa, curiosa apesar de tudo.
       - Sempre. Por respe-respeito a minha me. No gostava das bebedeiras, e menos ainda em seus filhos. Afirmava que o lcool e o irlands eram uma pssima combinao.
Suponho que tinha razo, porque o lcool matou meu pai.
       - Ento, por que beber?
       O homem riu.
       - Esse era o plano.
       Rachel no compreendeu o que parecia to divertido.
       - Suponho o que deve ter pensado.
       Matt elevou um dedo.
       - Mas, como pode ver, os planos nem sempre do resultado. - deteve-se de repente, focalizou com esforo a vista em algo que estava diante deles, na escurido,
e disse: - No posso fazer que nenhuma maldita coisa se mantenha quieta o tempo suficiente para cont-la bem, mas me parece que so muitas.
       Rachel soube que tinham chegado  igreja e que ele se referia aos degraus da frente. Igual a seu companheiro, tinha que entreabrir os olhos para v-los, embora
por diferentes motivos.
       - Muitos para que?
       - Para subi-los. - Pareceu-lhe terrivelmente divertido e comeou a rir outra vez. Logo, sem advertncia prvia, inclinou-se e bateu a testa contra a da moa.
- Jesus... - Soltou uma grande baforada de ar. - No sei, tesouro. Detestaria ter que desiludir uma dama, mas esta  uma das vezes em que meu bom amigo Henry poderia
no ficar  altura da situao.
       Pensando que podia ter marcado de encontrar-se com seu amigo Henry ao sair do salo, Rachel jogou um olhar preocupado para trs.
       - Quem  esse?
       - Quem  quem?
       - Henry. Quem ?
       - Henry ... - interrompeu-se e rompeu em gargalhadas renovadas. Quando recuperou o flego, disse: - Meu deus, que doce . Sou sincero:  pura como um anjo,
autenticamente doce. Faz tanto tempo que no me encontrava com uma que tinha esquecido que existem moas como voc.
       Rachel no compreendia o que tinha a ver seu carter com tudo isto.
       - Obrigado - respondeu, distrada. - Mas no respondeu minha pergunta. Quem  Henry? No tinha dito que ele ia vir.
       Uma vez mais, os ombros do Matt se sacudiram de risada.
       - No vem. E nisso consiste o maldito problema. No te parece interessante?
       Impaciente com essas respostas absurdas, Rachel o conduziu para a entrada.
       - Arrumar-nos-emos muito bem sem ele, asseguro.
       - Senhor, me ajude.
       Seduzida pela possibilidade de vingar-se, Rachel se empenhou em ajud-lo a subir o lance de degraus. E se Matt Rafferty gostava dela um pouco, o que? Ela
sabia que no era agradvel, que no podia ser. Se fosse, no teria feito algo to censurvel com sua irm. Por que tinha que ser piedosa com ele, se ele no tinha
sido com Molly?
       De repente, Matt cambaleou para trs. Inadvertida, Rachel cambaleou com ele. Por sorte, s tinham subido uns poucos degraus. Levantando p, aterrissaram de
forma pouco elegante ao p da entrada, Rachel, com a saia e as anguas pela cintura e as largas pernas do Matt entrelaadas nas suas.
       - Maldio. - depois de dar uma olhada, o homem sentou e sacudiu a roupa. - Desculpe-me. Ao que parece est difcil para eu caminhar.
       Com as saias levantadas como estavam Rachel estava muito envergonhada para sentir dor, se  que tinha se machucado em algum lugar. Matt lhe lanou um de seus
adorveis sorrisos.
       - Pelo menos no h ningum para ver.
       Rachel lhe deu um empurro no ombro.
       - Preferiria que voc tambm no tivesse visto.
       - Antes que tudo isto termine, verei muito mais que isto.
       Tratou de levantar-se, mas no conseguiu mais que ajoelhar-se e perdeu o equilbrio outra vez. Sacudiu uma mo com a outra para tirar o p.
       - Diabos.
       Rachel adivinhou a derrota na expresso do homem e decidiu no aceit-la. Jurou que o colocaria dentro da igreja, embora tivesse que carreg-lo.
       - Pode conseguir - disse em tom corajoso.
       - No acredito.
       - Bom, est bbado e, portanto, no est em condies de opinar. - ficou de p, segurou-o pelas axilas e tratou de levant-lo. - Levante se, senhor Rafferty.
       - Estou tentando.
       - Tente com mais vontade! - Ardia-lhe a garganta pelo p que tinha aspirado. Gemeu de frustrao ao ver que, at fazendo toda a fora que podia, ele no ficava
de p. - Tem de faz-lo. Depois de ter chegado at aqui, no posso desistir.
       O homem se soltou das mos de Rachel.
       - Deixa de me puxar - ordenou ele, resmungo. - Se continuar insistindo, farei mal a voc.
       Depois desta afirmao, ficou sentado onde estava. Rachel se inclinou para ele, com as mos apoiadas nos joelhos.
       - Bom, e bem? Tentar ou no?
       Ele sorriu com expresso incerta.
       - Sabe querida? Acredito que nunca me topei com uma pequena moa to ansiosa.
       Rachel sentiu desejos de levant-lo pelas orelhas.
       - Por favor, senhor Rafferty, ao menos, tente.
       - Senhor Rafferty? Se formos ficar ntimos... - ficou de joelhos outra vez - ao menos deveria me chamar por meu nome de batismo. - Com um grande impulso,
ficou de p e se encaminhou de novo para os degraus, j sem ajuda, e a chamou. - Ser melhor que levante esse pequeno traseiro da e aproveite a ocasio. Sinto-me
um pouco enjoado.
       Rachel se apressou a segui-lo. Ao chegar ao patamar, segurou-o pelo brao para evitar que casse de novo. Arrastou-o para a porta, dizendo:
       - S mais uns poucos degraus.
       - Odeio dizer isso, mas acredito que chegar ali ser a parte mais fcil.
       Riu, como se houvesse dito algo muito divertido.
       Rachel abriu uma das portas e entrou na igreja de costas, segurando o homem pelas mos para poder olhar e coloc-lo dentro. Quando a porta se fechou, uma
densa escurido se abateu sobre eles, e chegou aos narizes da moa o aroma de verniz e a cera. Andando s cegas, encontrou a ltima fila de assentos e guiou Matt
ao redor, at que conseguiu apoi-lo contra o respaldo do banco.
       A nica coisa que faltava fazer era esperar que ele desmaiasse.
       Assim que cruzou sua mente esse pensamento, as mos do homem estavam em sua cintura. Com uma fora que a surpreendeu, tendo em conta o estado do sujeito,
atraiu-a para ele. Apesar da escurido, soube que tinha separado as pernas para ter Rachel entre elas. Embora no fosse mais que uma vaga silhueta na escurido,
pareceu abater-se sobre ela, como um ameaador muro de masculinidade. A borda do chapu caiu da testa. Um instante depois, aquela boca to quente procurou a sua,
e as mos se ocuparam com o fecho do suti de Rachel.
       Tratou de gritar, mas os beijos roubavam o seu flego e a boca do Matt abafava qualquer som que pudesse emitir. Segurando-o pelos punhos, tratou de afastar-se.
Ficou em pnico quando sentiu que o ar frio lhe roava os seios: ele tinha aberto o suti do vestido to rpido. Agora, s o fino tecido da camisa protegia seus
mamilos do contato dos dedos do homem. As palmas speras se cavaram totalmente sobre seus seios, e o contato lhe tirou o ar dos pulmes de uma s vez. Um instante
depois, o homem segurou sem vacilaes os bicos erguidos entre polegar e indicador. Rachel sentiu que a percorriam correntes de fogo, esquentando suas vsceras,
acelerando seu pulso, acendendo um anseia de algo indefinvel que logo se converteu em dor.
       Compreendeu vagamente que tinha perdido por completo o controle, que agora estava em mos de Matt. Ele sabia como tratar um corpo de uma mulher, isso estava
claro, e castigava os sentidos de Rachel com um ataque de sensaes que ela nem sonhou que existissem.
       Esforando-se para esclarecer pensamentos, soube que teria que se separar dele. Por algum motivo, o homem no desmaiou no momento convencionado, e qualquer
um sabia o que poderia fazer. Porm em semelhante situao, no pensava em abandonar o plano, depois de ter tido tanto trabalho para lev-lo ali. Antes de ir, teria
que tirar as calas dele.
       Tentando no sentir o que ele estava lhe fazendo a seus seios e sem conseguir, procurou com cuidado o cinturo do revlver. Quando por fim abriu a fivela,
uma das pistolas se soltou, e a culatra do revlver se chocou contra o banco. A moa se encolheu e se ajoelhou para apoiar as armas no piso antes de concentrar-se
outra vez no cinturo da cala. Por sorte, foi fcil de desabotoar. Com o tato, encontrou os botes de bronze da braguilha. Ao sentir os dedos da moa em um lugar
to privado, o homem ficou rgido e conteve o flego.
       - Jesus... - exclamou, em um sussurro entrecortado. - Fique tranqila, carinho; se no, chegarei na sua frente.
       Rachel no tinha a menor inteno de tranqilizar-se. Desesperada, puxou as calas, com o rosto banhada de suor, o corao batendo selvagem dentro do peito,
os seios eletrizados pelas sensaes desconhecia feitas pelos dedos destros do homem.
       Para seu alvio, por fim, Matt abandonou os seios. Mas um instante depois, sentiu as mos no fechamento da saia. Puxou com mais pressa as calas, decidida
a terminar. Quando tivesse afastada dele, poderia voltar a arrumar sua prpria roupa. Matt estava to bbado que no recordaria nada do que estava acontecendo. T-lo
tocado em uma parte to ntima seria a culpa secreta de Rachel.
       De repente, o homem se inclinou para frente e apoiou a testa no seu ombro.
       -Oh! - disse, em voz dbil, com pronncia confusa. - No me sinto bem.
       Enquanto seguia tentando lhe tirar as calas, Rachel sustentou o peso do homem com esforo.
       - Oh, Cristo - disse Matt, com um sussurro entrecortado.
       Depois caiu em cima dela. Antes que Rachel pudesse reagir, os ombros largos de Matt a golpearam totalmente, e a fora desse peso considervel a fez cair para
trs. Gritou, e o som ressonou na escurido, enquanto caa. A dor estourou na base do crnio e dentro relampejou uma luz branca. Logo, como cortada por uma faca
aguda, toda sensao cessou, e desacordou.

3

       Cera e verniz. Algodo secado ao sol e couro. Ao despertar, Rachel registrou vagamente os aromas. Quando comeou a espreguiar-se e a bocejar, soube que algo
estava errado. Um peso macio esmagava seu corpo. No s a impedia de mover-se, mas tambm dificultava sua respirao.
       Confusa e desorientada mexeu as pestanas e a cada segundo que passava tomava conscincia de que doa sua cabea. No uma dor sem importncia, a sim uma gigantesca,
que parecia esmagar o crnio e que irradiava da nuca.
       - Que vergonha! - sussurrou uma voz de mulher de algum lugar.
       O inesperado som fez sobressaltar Rachel. Antes que pudesse mover-se ou abrir os olhos, outra voz feminina disse:
       - Eu digo Clara, que essa gente jovem j no tem respeito por nada.
       Ainda apanhada na nvoa do sonho, Rachel franziu o sobrecenho, completamente desconcertada. Nenhuma das vozes parecia com a de Molly ou a da senhora Radcliff,
a governanta. Que demnios faziam pessoas desconhecidas em seu dormitrio?
       Passou uma mo pelo rosto, e ante seus olhos apareceu um mancha de luz multicolorida. Sem os culos, estava bastante acostumada que tudo o que estivesse alm
da ponta de seu nariz fosse uma mancha, mas, por alguma razo, esta manh era pior que de costume. Decidida a livrar-se das teias de aranha, piscou, mas seu crebro
se negou a colaborar. Ao redor os objetos entravam e saam de foco, precipitando-se para ela quando se esclareciam, para retroceder logo um pouco. Bancos de igreja
reluzentes? Rostos humanos e janelas de vidraa? A nica certeza era que no estava em seu dormitrio, em sua casa.
       - Isto  uma abominao! - exclamou uma mulher.
       - Um pecado contra tudo o que  sagrado! - vociferou outra.
       Tudo o que era sagrado? Rachel chegou  concluso de que devia estar na igreja. Mas o que estava fazendo ali? Fechou os olhos com fora outra vez, para no
enjoar. A cabea... Oh, Deus, sentia-a como se a tivessem partido com um porrete. Acaso tinha pegado uma enfermidade repentina? Possivelmente tinha desmaiado. Isso
explicaria o peso opressivo que a esmagava. Olivia Harrington, uma matrona do lugar, afirmava que, ao recuperar-se de um desmaio, a mulher sentia os membros pesados
e imprestveis.
       Abrindo os olhos com dificuldade, Rachel tentou ignorar a dor e concentrar-se no que a rodeava. Sim, sem dvida estava na igreja, e a percorreu um vago alarme.
Recordava um pouco algo relacionado com uma igreja, algo importante, mas, por mais que se esforasse, no podia entender do que se tratava. S sabia que tinha a
espantosa sensao de que havia algo errado na situao.
       O peso que a esmagava contra o cho de repente se moveu. Ao movimento seguiu um gemido, inconfundivelmente masculino. O som, baixo e rouco, vibrou-lhe no
peito e converteu o alarme em um ataque de pnico total. Havia algum estendido sobre ela? Um varo? Oh, Deus! Um pouco mais desperta, sentiu a mo grande e morna
apoiada sobre seu peito. Teve a impresso de que quase nada se interpunha entre os dedos do homem e sua prpria pele.
       Esquecendo a dor de cabea, Rachel lanou um grito sufocado e empurrou o sujeito pelos ombros, mas, por mais que empurrasse, no conseguia mov-lo. Em um
abrir e fechar de olhos, a lembrana da noite passada se abateu sobre ela.
       Matt Rafferty! Rachel jogou um olhar horrorizado ao sol que entrava pelas janelas com vidraas.
       O homem sussurrou to perto de sua orelha que a voz pareceu emergir de seus prprios pensamentos.
       - Que diabos estou fazendo aqui?
       Essa era a dvida da prpria Rachel.
       - Fora - grasnou. - Saia de cima de mim!
       No to rpido como ela queria, ele se apoiou em um cotovelo.
       - Que diabos...! - Quando olhou ao redor, o corpo esticou. - Oh, Cristo!
       Rachel seguiu o olhar do companheiro e viu uma multido de pessoas que tinha entrado na igreja. Ela mesma tinha planejado que isto acontecesse: que esse homem
despertasse rodeado de curiosos e se sentisse to humilhado que tivesse vontade de morrer. Mas ela no teria que estar ali com ele! Tanta gente... Sem os culos,
no podia ver com clareza os rostos, mas mesmo assim no podia livrar-se da sensao de que todos eles a olhavam fixamente. Um arrepio percorreu sua pele. Como aves
de rapina  espera para alimentar-se de carnia, apertavam-se ao redor dela e suas roupas formavam uma mancha caleidoscpica de cor sob os rostos ovais plidos.
Sentindo que o temor crescia dentro dela, tocou o pescoo com mo trmula. O pescoo nu?
       Sobressaltada, olhou-se e, para seu horror, viu que o que lhe cobria os peitos era a fina camisa de algodo. Afogou uma exclamao e se cobriu com as duas
mos.
       Quando Matt percebeu o estado de desarrumao de sua companheira, olhou para si mesmo. A julgar pela expresso que apareceu em seu semblante quando viu no
ter o cinturo com as armas, que tinha as calas abertas, no recordava muito do que tinha acontecido.
       Com voz enrouquecida pelo sonho, disse:
       - Que diabos aconteceu? - Ficando em p com dificuldade, comeou a abotoar a cala jeans. - Como  que... quando foi que ns...?
       Antes que pudesse terminar, abriu-se de repente uma das portas da igreja, com tanta fora que golpeou a parede interior. O rudo foi ensurdecedor.
       - Onde est? Rachel Marie! - Os assistentes se afastaram para deix-lo passar, com sussurros de roupa e rangidos de couro de sapatos. - Afastem-se. Fora de
meu caminho!
       At com sua pobre viso, Rachel reconheceu o colete de pele de camelo, a camisa branca e a estrela reluzente que eram as marcas inconfundveis de seu pai.
A voz, elevada at ser quase um rugido, tambm era inconfundvel. No precisava ser um gnio para compreender que algum tinha ido busc-lo, depois que encontraram
a ela e ao Matt na igreja.
       Apressou-se a terminar de abotoar o corpete antes que seu pai a visse. Estava na metade da tarefa quando Big Jim Constantino por fim conseguiu abrir caminho
at a primeira fila da multido. Deu-lhe uma olhada e exclamou:
       - Oh, Rachel...!
       - No  o que parece, papai. Srio! Deixe-me explicar isso!
       Rachel tinha muitos motivos para acreditar que seu pai daria ateno. Era um homem de bom carter, justo, que estava acostumado a fazer muitas perguntas e
escutava as respostas antes de julgar.
       Esticou uma mo, mas em lugar de ajud-la a levantar-se, o pai olhou  camisa pela metade abotoada e se virou para Matt Rafferty.
       - Voc, pedao de miservel, filho de cadela...!
       - Papai! - gritou Rachel. - O que vai a...? Oh, Meu deus, pare!
       Poderia ter economizado flego, porque seu pai no a ouviu. Era um homem muito alto, corpulento, e aterrissou sobre o mais jovem como se acabasse de mergulhar.
Matt, sem dvida afetado ainda pela valeriana, caiu para trs sob o ataque e o ar escapou de seus pulmes com um assobio forte. Antes que pudesse comear sequer
a defender-se, Big Jim segurou-o pelo pescoo com as duas mos.
       - Pequeno verme miservel! Inconsciente filho de cadela! Vou mat-lo! Vou mat-lo com minhas prprias mos!
       Desde esse momento, tudo foi como um pesadelo para Rachel. Teve a estranha impresso de que se examinava sobre si mesma, de que observava tudo atravs de
uma lente de cristal embaado.
       - Papai, basta! - Em vo, segurou o brao de seu pai. - Tem que parar. Ele foi drogado e no pode defender-se. OH, Deus santo, vai mat-lo!
       O pai tratou de desembaraar-se dela.
       - Me deixe em paz, moa. Maldio me solte!
       Nada poderia ter induzido Rachel a desistir: esta situao era culpa dela, toda dela. E at com a vista curta, podia ver que o rosto de Matt estava ficando
prpura. Por muito rancor que guardasse dele, no queria v-lo morto.
       - Papai, pelo amor de Deus! Olhe o que est fazendo!
       Quase chorou de alivio ao ver que trs homens se adiantavam para ajud-la. Depois de vrias tentativas, conseguiram segurar Big Jim. A julgar pelo modo como
Matt se sufocava e ofegava tratando de recuperar o flego, esteve a ponto de morrer asfixiado.
       Assim que os trs homens soltaram seu pai, Rachel se precipitou para ele.
       - Papai, tem que me escutar. Ele no tem culpa. Juro a voc. Por favor, tem que deixar que eu explique o que aconteceu.
       Com o peito agitado pelo esforo, o pai moveu os ombros para acomodar a camisa.
       - Muito bem, explique.
       Antes que Rachel pudesse falar, as portas se abriram outra vez, indicando que tinha entrado outra pessoa. Os corpos se moveram.
       Um instante depois, Rachel ouviu uma exclamao de horror. Indubitavelmente, era a voz de Molly, embora lanasse sons inarticulados. O corao de Rachel se
apertou: sua inteno era vingar sua irm, no faz-la suportar uma situao mais penosa ainda.
       - Rachel? - murmurou Molly, espantada. - Oh, cus, o que fez!
       A Rachel pareceu que a resposta era bastante bvia: tinha degradado um pouco Matt Rafferty, embora ao faz-lo degradou a si mesma.
       - Oh, Molly! - Rachel mordeu o lbio e desejou com todo o corao que sua irm no tivesse aparecido na igreja.
       Molly moveu a cabea.
       - Oh, Rachel! Fez isto por mim. Sei que foi assim! - cobriu as bochechas com as mos. - Oh, isto  horrvel! Enganou-se de homem!
       Rachel no teve idia do que queria dizer sua irm com isso e, antes que pudesse pensar seu pai a interrompeu com uma brusca ordem para que se explicasse.
O mais brevemente que pde, Rachel relatou os feitos que tinham levado a situao presente, fazendo o possvel por no esquecer de nada, por mais desagradvel que
fosse para ela mesma. A nica concesso foi no mencionar Doura Faye. Que o pai pensasse o que quisesse: que tinha subornado algum dos paroquianos do salo para
que drogasse a bebida de Matt Rafferty, ou que uma das garotas do andar de acima lhe tinha feito o favor. Em realidade, no tinha importncia, desde que no metesse
Doura Faye em problemas.
 medida que Rachel avanava na histria, observava de perto Big Jim, tentando sem xito adivinhar sua expresso.
       - Como v papai, no foi culpa dele. Eu enganei o senhor Rafferty para que viesse aqui. E, se no fosse o acidente do golpe na cabea, j teria ido embora
faz tempo.
       Molly gemeu, consternada, provocando um olhar furioso do pai.
       - Acaba com isso, jovenzinha! Se no fosse por seu dramatismo, sua irm no se veria em semelhante apuro!
       Rachel, eterna defensora de sua irm, falou:
       - Vamos, papai, isso no  justo. No pode jogar a culpa em Molly...
       - Voc fique calada! - gritou Big Jim, interrompendo-a.
       Beliscou a ponta do nariz e fechou os olhos com fora um momento.
       - Est bem, Rachel Marie, me conte tudo de novo. Mas desta vez um pouco mais devagar.
       Contendo o impulso de record-lo que acabava de mandar que se calasse, Rachel perguntou cautelosa:
       - Que parte?
       - Tudo! - disse o pai, entre dentes.
       - Tudo! Papai, acaso no...?
       O pai a interrompeu de novo, desta vez, com um gesto irado do dedo.
       - Tudo! E no me venha com suas rabugices, maldio. No estou com pacincia para toler-las!
       Rachel compreendeu que estava perigosamente perto de perder a pacincia. Tentando falar com mais parcimnia, explicou outra vez como se encontrava essa manh
na igreja, com Matt Rafferty. Quando terminou de explicar a seu pai pela segunda vez e viu que continuava confuso levantou as mos, impotente.
       - Que parte no ficou clara papai? Ele machucou o corao de Molly, e eu queria me vingar. Com essa inteno, fiz que o drogassem e o atra at a igreja.
A idia era que esta manh despertasse sem suas calas, na igreja repleta. - Como seu pai seguia perplexo gritou - Ele humilhou a minha irm! - Ao ouvi-la, Molly
gemeu outra vez, mais forte e para fazer-se ouvir, Rachel levantou a voz. - to difcil de entender por que tentei faz-lo provar um pouco de seu prprio remdio?
Assim  fim da histria.
       - Rachel, se foi como diz, se tudo isto est relacionado com Molly e seu estpido amor por Matt Rafferty, ento, que diabos - assinalou ao homem que estava
no cho - est fazendo ele aqui?
       - J disse isso, eu... - Um espantoso arrepio percorreu a pele de Rachel, e lanou um olhar inquieto a Molly, que seguia gemendo e soluando, e logo ao homem
atirado a seus ps - Oh, Deus este no  Matt Rafferty? - Na realidade, no era uma pergunta: a conduta de Molly e o tom do pai lhe indicaram que tinha adivinhado.
- Oh, cus - sussurrou. - Oh, cus, Oh, cus, Oh, cus.
       -Oh, cus? - repetiu o pai. - Isso  tudo quem tem a dizer. Rachel Marie? Oh, cus? - A cada palavra, sua voz parecia elevar uma oitava. - Narcotizou o homem
equivocado, e s o que consegue  dizer "Oh, cus"!
       Rachel comeava a compreender as conseqncias do que tinha feito e lanou outro olhar a sua vtima.
       - Se no  Matt Rafferty, quem ? - perguntou, com voz tremente.
       - Quem ? Quase o matou, e voc est a e me pergunta quem ! Juro, menina, esta  uma das vezes em que poderia usar a pele de seu traseiro para afiar minha
navalha, sem um pingo de remorso!
       - Big Jim, tratemos de manter a calma - disse o homem que estava no cho.
       Embora sua voz ainda soasse um pouco confusa, pelo modo como falava Rachel soube que estava recuperando-se com rapidez.
       - Manter a calma, diz? Juro, Por Deus, que no conheci um instante de calma desde o dia que ela nasceu. Lamento o que aconteceu Rafferty, de verdade.
       Rachel no podia tirar a vista do homem que tinha confundido com Matt Rafferty fazia uns segundos. Sem os culos, que jamais usava em pblico, o sujeito no
era mais que uma mancha para ela. Seu pai o tinha chamado Rafferty, e isso significava que se tratava de um dos irmos de Matt. Pernas largas caladas por botas,
cabelo rebelde, olhos azul cinza. Sua vista ruim  explicava o motivo de t-lo confundido, pois todos os irmos Rafferty eram altos, de cabelo ondulado e pele bronzeada.
       Recordando a observao absurda que tinha feito Molly uns momentos antes, Rachel se encolheu: "Enganou-se de homem!". Uns minutos antes, isso no tinha sentido,
mas agora entendia com toda clareza.
       -Se voc no  Matt, que irmo ? - perguntou tremendo,  vtima.
       - Clint.
       Durante um espantoso momento, Rachel sentiu que parava seu corao. Como Clint Rafferty, o mais velho dos irmos, dificilmente ia  cidade, e muito menos
freqentava o botequim, pensou que tinha entendido mal.
       - Como diz?
       - Clint! - repetiu um pouco mais forte, com voz ainda rouca de sono.
       Clint Rafferty? Rachel apertou a cintura com a mo, sentindo-se repentinamente deprimida. De todos os irmos Rafferty com que podia ter cruzado, tinha que
ser o mais aterrorizador. At outros homens do povo lhe abriam caminho.
       - Clint? - repetiu estupidamente. - Mas voc nunca vai ao Golden Goose. Deve haver um engano!
       - Ah, sim,  claro que h um engano! - reps o homem, com a mesma voz rouca. - Mas no sou eu quem o cometeu.
       De repente, algo ocorreu em Rachel.
       - Espere um momento! Voc tem que ser Matt Rafferty. Se no, por que Doura Faye...?
       Interrompeu-se no ltimo momento, imaginando que balanava os braos para no cair. A ltima coisa que queria era meter em problemas a sua amiga.
       Clint lanou um sorriso lnguido e perspicaz.
       - Doura Faye no me impediu de bebesse o usque narcotizado, se essa era sua pergunta. Em um dado momento, perguntei-me por que, mas agora j sei. - Depois
de dizer isso, apoiou-se em um joelho e recolheu o chapu. - Quanto a mim, o nico mistrio  por que no apareceu na porta do botequim e fez gestos de que tinha
administrado narctico ao homem equivocado. Teria economizado um monto de problemas aos dois.
       Com os olhos da imaginao, Rachel viu Doura Faye como na noite passada, imprecisa e displicente, parada  entrada do salo, agitando os braos. Sem os culos,
Rachel tinha acreditado que o sinal da amiga queria dizer que tudo estava bem. Teria querido lhe avisar que nada tinha sado conforme o combinado? Que Rachel devia
desistir? Se no fosse to espantoso, poderia ser divertido.
       Rafferty ficou de p e disse:
       - Espero que me desculpem, mas eu j vou. Por mais divertido que tenha sido, tenho em casa um irmo pequeno para atender, e devo cuidar de meu rancho.
       Rachel no tinha objeo que partisse, e, no que a ela se referia, quanto antes, melhor. Mas, ao que parece, seu pai no era da mesma opinio.
       - Espere um minuto, filho.
       Clint sacudiu o chapu sobre a perna da cala.
       - Que espere, diz? No diga que pensa me prender. Por que teria que faz-lo? Por estar no lugar errado no momento exato?
       Tendo em conta que o pai tinha estado a ponto de enforc-lo, Rachel no estranhava que Clint Rafferty se mostrasse pouco compreensivo.
       - Eu no chegaria at o ponto de prend-lo - disse Big Jim, - mas aqui temos uma pequena ruga que deveremos alisar.
       - Ruga?
       Big Jim indicou com a cabea Rachel.
       - Minha filha passou a noite com voc, sem outra companhia. Isso no est certo. No est nada certo.
       Rachel segurou o corao.
       - Papai?
       Big Jim no deu ateno.
       - Em minha opinio...
       - Cale-se, Rachel Marie! - exclamou, fazendo um gesto, sem tirar a vista de Clint. - Em minha opinio, a reputao de minha filha ficou muito prejudicada,
Rafferty. E s voc pode remedi-la.
       - Remedi-la? - repetiu Rachel. - O que quer dizer?
       - Sim, o que , exatamente, que quer dizer? - perguntou Clint.
       Rachel no precisava ver Rafferty com clareza para compreender que recuperava rapidamente os sentidos. Se no se equivocava, esse homem estava a ponto de
perder os estribos. Sapateava com as botas sobre o piso num ritmo impaciente, ao tempo que se ocupava de recuperar os revlveres. Em horrorizado silncio, observou-o
colocar a correia cruzando os quadris e amarrar as cartucheiras a suas coxas musculosas e esbeltas. Nesse momento, ocorreu-lhe que quem corria o risco de perder
a vida no enfrentamento era seu pai, e no Clint Rafferty. O homem mais jovem tinha uma endemoninhada reputao de velocidade com as armas.
       Sem saber o que fazia, Rachel se aproximou de seu pai.
       - Papai, esta situao pode ser resolvida com muita facilidade. Quer dizer, como acabo de explicar, nada disto  culpa do senhor Rafferty. No meu entender,
teramos que ir todos, cada um para sua casa, e esquecer o acontecido.
       - Fica calada, Rachel.
       Temerosa por seu pai, Rachel se dirigiu a Clint com expresso de splica.
       - No concorda? Quero dizer que deveramos esquecer o que aconteceu. - Lanando uma breve gargalhada nervosa, acrescentou - No , fim da histria?
       - Rachel Marie - disse o pai, contendo-se, - isto  muito mais grave. Sua reputao est destruda. O senhor Rafferty sim entende as conseqncias, embora
voc no.
       Rachel entendia mais do que seu pai supunha e tinha uma horrvel sensao de que a situao estava transbordando. Assinalando aos paroquianos, disse:
       - Mas, papai, todos os pressente ouviram minha explicao. Todos sabem que no aconteceu nada inapropriado.
       - No  to simples, Rachel. Quando uma jovem passa a noite a ss com um homem, s uma coisa pode conservar seu bom nome, e essa  o matrimnio. No importa
se na realidade aconteceu algo ou no. A nica coisa que importa  o que parece.
       - Matrimnio? - exclamou Molly. - No fala a srio!
       - Matrimnio? - repetiu Rachel, com voz dbil. - Matrimnio, falou?
       - Matrimnio - confirmou Big Jim.
       Deixando que a afirmao vibrasse no ar, Big Jim segurou Clint e Rachel nos braos e, sem fazer caso dos agudos protestos da filha, arrastou-os para o altar.
Quando chegaram, comeou a chamar aos gritos o sacerdote. Enquanto isso, Rachel tentava faz-lo encontrar a razo, coisa que foi impossvel: seu pai no s era alto
e corpulento, como tambm era teimoso. Quando colocava algo na cabea, ningum, nem as filhas, podiam dissuadi-lo.
       O reverendo Wells, homem alto, ossudo, de cabelos cinza revoltos, bondosos olhos castanhos e nariz aquilino, abriu caminho entre as pessoas e apressou-se
a subir ao plpito, com o livro de oraes na mo.
       - Big Jim, isto  muito irregular. Nem sequer colocamos os proclamas.
       - Ao diabo com os proclamas: limite-se a cas-los.
       O ministro fez um eloqente gesto com os ombros.
       - S fazia uma observao.
       - Papai! Perdeu o juzo? No posso me casar com esse homem! - Rachel se voltou para Clint - No fique a, parado! Faa algo!
       Ao que parece, Clint no se alterava, e, levantando um ombro disse:
       - O que? Apazigu-lo? Lamento querida, mas a idia de me casar no me incomoda.
       - No o incomoda? Como pode dizer isso! Estamos falando de matrimnio!
       - No que me diz respeito, de todos os modos estava pensando em algo assim.
       Rachel no podia acreditar que se mostrasse to cavalheiresco.
       - Voc est to louco quanto meu pai.
       Bis Jim fez um gesto ao ministro.
       - Esquea todo ornamento, reverendo. A nica coisa que nos importa  que seja legal.
       Rachel agarrou o brao de seu pai.
       - Papai, acaba com isto!  uma loucura total! Como pode pensar?
       - Tudo isto  por minha culpa! - soluou Molly, atrs. - Por minha culpa.
       O clrigo escolheu esse preciso momento para dizer com voz trovejante:
       - Meus queridos bem amados, estamos aqui reunidos...
       Soltando o brao, Big Jim agarrou o corrimo do coro e se inclinou para o plpito.
       - Maldio, William, disse para saltar todas as besteiras. V para as partes importantes.
       Wells tossiu e limpou a garganta.
       - Como j falei tudo isto  muito fora do comum.
       - Voc faa-o - replicou Big Jim. - Se quisesse o comum, pediria o comum.
       O encrespado sacerdote procurou com um dedo a pgina, para encontrar as partes importantes que recitar todo o...
       - Por todos os cus! - interrompeu-o. - Acaso vai me dizer que no conhece as palavras de cor? - Elevou as mos. - Pelo amor de Deus, faz vinte anos que est
casando pessoas! Como no sabe o texto, William?
       Aproveitando a distrao de seu pai, Rachel se voltou para Clint. Aproximando-se para poder ver bem o rosto, sussurrou:
       - No pode ficar tranqilamente a e no fazer nada para acabar com isso.
       - Quem o diz?
       - Eu!
       Clint permaneceu com as mos unidas nas costas, a vista fixa no ministro, a expresso imutvel. A Rachel pareceu que via o inicio de um sorriso no canto da
boca do homem e teve vontade de lhe dar um bom chute por no deter a cerimnia. Mas, antes de poder levar a cabo a idia, pensou melhor. Na noite anterior, ele tinha
se mostrado encantador, embora estivesse atordoado pela bebida e adoado pela valeriana. Nessa manh, todo rastro infantil tinha se apagado do semblante. Se precisasse
descrev-lo, diria que o via mais srio que atemorizador, longe da classe de homem que se podia provocar.
       Afastou o olhar e percorreu com ele a igreja, afligida ao ver que os paroquianos se dispersaram e ocuparam seus lugares de costume nos bancos, no como se
fosse um servio dominical comum, mas sim para assistir a um casamento. Seu casamento.
       Sentiu um impulso desesperado. Erguendo os ombros e elevando o queixo com gesto determinado, enfrentou seu pai:
       - Papai, no posso me casar com este homem - disse, pronunciando com clareza. - De verdade, no posso. E nada do que diga ou faa me convencer do contrrio.
       -  obvio que pode - replicou o pai, e sem fazer uma pausa, tirou o Colt da cartucheira e apoiou o canho na tmpora de Clint Rafferty -  a nica coisa que
pode fazer. Queira ou no, o senhor Rafferty prejudicou gravemente a minha menina. A honra exige que o mate se no se casar com voc. Assim so as coisas; uma espcie
de cdigo tcito entre homens. No  verdade, senhor Rafferty?
       - Cristo - pronunciou o aludido, com voz rouca.
       Rachel contemplou seu pai com horror crescente, embora tentasse dissimular sorrindo e cruzando os braos.
       - Muito bem. Ento vai mat-lo a sangue frio. Depois de toda uma vida defendendo a lei? Vamos, papai, sei que sou um tanto crdula, mas isto  uma tolice!
       Com gestos lentos e decididos, o pai engatilhou a arma.
       - Cr que estou envaidecido? Est equivocada, Rachel Marie. Tenha a culpa ou no, ele acabou com qualquer possibilidade de que voc pudesse contrair um matrimnio
decente.
       - No  certo! - Rachel passeou a vista pela igreja e descobriu Lawson, o filho do reverendo Wells, que tinha estado cortejando-a nos ltimos trs anos. -
Diga-lhe Lawson! diga que no importa, que me ama, e que, de todos os modos, no vacilar em casar comigo!
       Com a aparncia de estar asfixiando-se com a gravata, Lawson levantou-se de um salto, engoliu com dificuldade e permaneceu em p, com os olhos saindo das
rbitas.
       - Ento? - implorou Rachel. - Fala agora, Lawson, ou cala-se para sempre!
       Para seu espanto, Lawson no disse nada. Rachel lanou um olhar colrico, contendo a vontade de cham-lo de mau tipo, rufio e servil, para comear. Mas se
conformou sussurrando baixo os insultos.
       - Acredito que isso demonstra o que afirmo - disse o pai, fazendo um gesto para Lawson. - Nem seu prometido se atreve a dar um passo  frente.
       Um pouco menos segura de si mesma, Rachel deixou cair os braos aos lados.
       - Isso no significa que tenha que matar o senhor Rafferty. S pretende me assustar para que aceite o que diz.
       - Oh, mat-lo-ei - assegurou. - Antes de deix-lo ir, dispararei na cabea e seu crebro se espalhar por todos os lados.
       A imagem fez Rachel encolher-se.
       - No fala srio, papai. Como pode ser, visto que  delegado? Se matas a uma pessoa, ter que entregar sua insgnia.
       - Por isso, no o entende? Um homem experiente no permite que outro faa mal a sua filha sem fazer nada para remediar. Rachel Marie, se no casar com ele,
terei que matar o pobre tipo. Simples assim.
       O ministro Wells prosseguiu com sua narrao:
       - Voc, Clint Rafferty, quer esta mulher, Rachel Marie Constantine, como sua legtima esposa?
       Do rosto moreno de Clint brotaram gotas de suor, e o pomo de Ado subiu e baixou, quando tratou de engolir.
       - Sim, quero - disse, sem um segundo de vacilao, e acrescentou para Rachel - E voc diga o mesmo sem discutir com seu pai. Est me apontando com uma arma
na cabea, se por acaso no notou.
       - No se preocupe. Na realidade, no o matar - tranqilizou Rachel.
       - Quer provar? - Big Jim desenhou um amplo sorriso e curvou o dedo sobre o gatilho.
       Clint fechou com fora os olhos.
       - Jesus Cristo! Faz o que ele diz, Rachel!
       Algo bateu asas no estmago da moa.
       - Papai, isso no est divertido. Como ousa ameaar assim a vida de um homem inocente?
       - Inocente - interveio Clint - essa  a palavra chave.
       O ministro o interrompeu outra vez:
       - E voc, Rachel Marie Constantino, quer a este homem como seu legtimo marido, para am-lo, honr-lo e obedec-lo, at que a morte os separe?
       Rachel ps os olhos lvidos e sorriu ao ministro com doura.
       - Talvez o senhor Rafferty esteja tremendo de medo, mas eu no. Antes que qualquer um de vocs me oua dizer "Sim. quero", nevar no vero.
       Big Jim sorriu ao ministro.
       - J a ouviu. Acaba de dizer. "Sim, quero", com toda clareza.
       - No disse! - indignou-se Rachel.
       - Sim, disse! - replicou Big Jim.
       Olhando Rachel com expresso de desculpa, o reverendo disse:
       - Eu a ouvi, Big Jim, mas no estou muito seguro do que quis dizer ...
       - Guarde suas opinies e termine a cerimnia - ordenou o delegado.
       - Pela autoridade que me concede... - comeou o ministro.
       Elevando a voz para cobrir a do clrigo, Clint disse:
       - Delegado, poderia apontar esse revolver a qualquer outro lado que no seja minha cabea?
       - Semelhante ttica nunca sustentar em um tribunal legal - exclamou Rachel - Estamos no sculo dezenove, informo-o. Os homens j no podem casar com as mulheres
contra nossa vontade. Contamos com recursos legais!
       Como sublinhando a afirmao, o ministro disse:
       - E agora vos declaro marido e mulher! - e fechou de um s golpe o livro.
       Um sbito silncio reinou na igreja. Era to denso que Rachel sentiu-se afogar nele. Olhou fixamente seu pai sem poder acreditar que a tivesse trado assim.
Seu pai, que sempre a tinha amado tanto... !
       Desde a morte de sua me, era a nica pessoa em que tinha podido confiar.
       Com um sorriso triste, por fim afastou o cano da pistola da tmpora de Clint. Enquanto soltava sem pressa o gatilho, disse:
       - Bom, cu, para o bem ou para o mau, agora tem um marido.

5

       Menos de uma hora depois, Rachel se achava a mais de um quilmetro e meio, nos subrbios do povoado, com um completo desconhecido que, alm disso, era seu
marido legtimo. Para complicar mais ainda as coisas, Clint tinha decidido no alugar uma carreta para a viagem de volta ao rancho, e isso significava que Rachel
ia sentada na arreios diante dele, obrigada a suportar a intimidade de seu contato durante toda a viagem. A mala e a bolsa da moa, unidas por um pedao de corda,
estavam atadas  garupa do cavalo, atrs do cavaleiro, como um par de tristes sacos de areia. Convencida de que Clint devia estar furioso - no podia pensar noutra
coisa, apesar de que, na igreja ele negou repetidas vezes, - Rachel espremeu o crebro para encontrar um modo de atenuar o aborrecimento antes que chegassem ao rancho
dos Rafferty e ele fizesse algo do qual se arrependessem os dois.
       - Senhor Rafferty?
       Ao ouvir seu sobrenome, ficou um pouco tenso, a mo na cintura de Rachel mudou de posio e a proximidade dos dedos aos seios foi um aviso sutil de que ela
j era sua esposa e, portanto, de sua propriedade.
       - Rachel, agora pode me chamar Clint.  algo mais ou menos aceitvel que entre marido e mulher se empreguem os nomes de batismo.
       - Sim, claro, Clint. - Sentiu na garganta um n de ansiedade, grande como um ovo de ganso. - Eu, ... - Fez esforos desesperados para engolir. Os olhos encheram-se
de lgrimas de frustrao, e os bosques que os rodeavam se converteram em manchas ainda mais imprecisas. Ao longe, via os picos acidentados das Cascades, que assim,
vistos sem os culos, pareciam vultos vagos, gigantescos, com as cpulas nevadas brilhando ao sol da manh estival. - Estava pensando... bom, sei que deve estar
zangado. At furioso. Por certo, no o culpo por isso, e quero que saiba que farei todo o possvel para resolver as coisas.
       - Srio? - Curvou os largos ombros e afastou um pouco o chapu para poder ver sua expresso. - E me diga, Rachel, de que modo pensas resolver as coisas? -
Os olhos azuis cinzento faiscaram quentes, olhando-a. - Se estiver errado, me corrija, mas pensei que as coisas estavam bem resolvidas.
       - Resolvidas, diz? Estamos casados, senhor Rafferty! No compreende o que isso significa? No posso acreditar que voc esteja de acordo com isto.
       Clint esboou um leve sorriso, e suas negras pestanas baixaram para ocultar pela metade sua expresso.
       - Suponho que, talvez, a situao assusta um pouco mais a ti que a mim.
       - Que me assusta? Por que deveria me assustar? - perguntou. - Acredito que seria mais correto dizer que estou inquieta.
       As dobras que emolduravam o sorriso se converteram em profundas fendas, e os lbios firmes se abriram em um franco sorriso.
       - Est bem, talvez se sinta mais inquieta que eu. E no a culpo por isso. Quase no me conhece, e agora, de repente, tenho o controle de sua vida. Isso deve
ser perturbador.
       Rachel poderia passar o dia sem o ouvir expressar assim a situao. Controle sobre sua vida? Oh, Deus! Piscou e afastou o rosto, incmoda pelo silncio que
se criou entre os dois, mas sem saber como romp-lo. Nervosa, manuseou as dobras da saia e desejou estar em qualquer outro lugar menos nesse.
       - Se servir de algum consolo - adicionou ao fim Clint, - no sou um homem de mau carter. No tem que temer... - interrompeu-se e fez uma pausa. - Inquietao,
no tem por que te inquietar.
       Rachel o olhou e cortou o flego. Assustada como estava, pareceu-lhe mais alto, de ombros mais largos que antes, um muro musculoso de poder que em qualquer
momento podia abater-se sobre ela. Controle sobre a vida dela? "Ah,  muito mais que isso", pensou, angustiada. "Muito, muito mais."
       Clint exalou um suspiro fatigado e se acomodou nos arreios. Por um momento, seus pensamentos se dirigiram para seu lar, onde seus irmos esperavam sua volta,
completamente ignorantes de que tinham uma cunhada nova. Por eles foi que no protestou por casar-se com Rachel e, por suas vidas  que agora no poderia arrepender-se
da deciso. Os Rafferty, includo mesmo Clint, necessitavam de uma mulher na casa, e no estava seguro de que ele sozinho pudesse encontrar uma comparvel com Rachel
Constantine. No s era formosa, coisa que, no que a ele tocava, era uma vantagem adicional, mas tambm tinha maneiras agradveis e se expressava com correo. Seria
uma boa influncia para seus irmos, realmente. Imaginou com um avental e uma mancha de farinha na bochecha e, s de pensar, roncou-lhe o estmago. Por Deus, nem
recordava h quanto tempo no comia uma boa comida caseira.
       No, no podia sentir nenhum arrependimento por ter casado com Rachel Constantine. Em sua mente rodava a expresso: "presente do cu". Era isso para ele:
um milagre que por acaso tinha cado no seu colo. Alm disso, no era culpa dele. Ao contrrio. Ele no tinha cado numa armadilha nem muito menos. E no era o nico
que se beneficiava. Deixando de lado os raciocnios egostas, Rachel teria sido crucificada pelos assim considerados cidados honrados de Shady Comers se ele no
a tivesse convertido em uma mulher honesta. Este matrimnio era o melhor para ela. Contemplando-a, Clint viu a expresso angustiada e preocupada que surgira nos
belos olhos azuis. Se tivessem se conhecido um pouco melhor teria podido adivinhar o que estava pensando. Como se sentiria uma mulher que acabava de casar com um
homem, contra sua vontade? E, alm disso desconhecido. Clint imaginou que no devia saltar de alegria. Por um momento, brincou com a idia de esperar para exercer
seus direitos conjugais, mas a descartou com a mesma rapidez com que a pensou. No instante em que disse, "Sim, quero", decidiu tirar o melhor partido possvel do
matrimnio. Tendo-o em conta, no pensava compartilhar uma cama com Rachel e abster-se de toc-la. S idia o enervava.
       J estava farto de ter que fazer frente  frustrao sexual. Em sua opinio, a intimidade entre ele e Rachel facilitaria iniciar uma relao amistosa. Talvez
houvesse quem opinasse que fazia as coisas ao inverso, mas isso no importava. Este tema de matrimnio era novo para ele, e iria elaborando as regras  medida que
avanavam. Embora suas lembranas da noite passada fossem um tanto turvas, algumas partes eram muito ntidas. Recordava como a tinha sentido entre seus braos, to
incrivelmente doce, como se Deus a tivesse feito especialmente para ele. Evocou o beijo de Rachel como trpego e tmido, certamente muito diferente do de uma mulher
experimentada, mas mesmo assim soube que dentro dela havia paixo que esperava arder. Isso foi evidente no modo como abriu a boca para ele e como amoldou seu corpo
ao de Clint. O problema principal consistiria em faz-la voltar para seus braos. Uma vez obtido isso, no duvidava de sua prpria habilidade para excit-la. Pensando
nestas coisas, cresceu-lhe no ventre um calor que queimava.
       Clint notou que ainda era de amanh e que, portanto, faltava um bom tempo para a noite, e se esforou para separar de seus pensamentos a idia de fazer amor.
       - Com respeito a sua irm Molly - disse em voz suave, - se for certo que Matt a humilhou em frente aos amigos e a fez chorar, realmente lamento.
       - No s a fez chorar - corrigiu - Destroou-lhe o corao - Dirigiu um olhar relampejante nos olhos azuis. - S por que tem quatorze anos no significa que
seja muito jovem para se apaixonar.
       - Certamente que no - deferiu Clint - Mas  bem provvel que seja capaz de amar mais intensamente, precisamente pela idade. Em minha experincia, estamos
acostumados a conter mais nossos sentimentos  medida que amadurecemos.
       Ouvi-lo expressar semelhante idia surpreendeu um pouco Rachel.
       - Ento no opina que  tudo tolices? Refiro-me a Matt ferir seu corao.
       Contemplando-a sentiu um arrebatamento quase irresistvel de beijar as pequenas rugas que se formaram no sobrecenho, embora no soubesse por que. Certo que
tinha lanado olhares admirativos a Rachel Constantine mais de uma vez desde que vivia na zona. Mas, sendo solteiro so e jovem, tinha lanado olhares de admirao
a muitas garotas. Talvez esse fosse seu problema. Fazia muito tempo que ele e seu amigo Henry no gozavam da companhia de uma dama, e os desejos contidos foravam
o controle de si mesmo.
       - No - reps com voz rouca, - no acredito que sejam tolices. No quero dizer com isto que Matt queria feri-la, nem que tenha sabido, sequer, que o fez.
       - Como  possvel que no saiba?
       Clint suspirou.
       - Rachel,  provvel que meu irmo tenha destroado muitos coraes, e no acredito que saiba.  um moo muito bonito e encantador. mais de uma ...
       Pela primeira vez no dia, Rachel sorriu. Embora fosse um sorriso leve e fugaz, existiu. E foi to brilhante que o fez calar e o deixou to aturdido que esqueceu
o que ia dizer.
       - Assim bonito e encantador, no? Sabe que vocs dois se parecem muito?
       Por um segundo Clint no soube como responder. Logo viu que o melhor era recorrer  velha sinceridade, que nunca tinha falhado, at o momento.
       - Matt e eu somos como dois fragmentos idnticos de gata, um gentil, e o outro no. Na superfcie, eu sou igual, mas me falta o brilho, querida.
       Os enormes olhos azuis percorreram lentamente o rosto do Clint. Depois de contempl-lo a seu desejo, sorriu de novo, levemente, mas os efeitos foram devastadores.
Olhando-a, Clint chegou  concluso de que poderia fazer-se milionrio se lhe ocorresse um modo de envasilhar toda essa doura de sua nova esposa.
       - Nunca vi seu irmo, assim no posso opinar, mas me custa acreditar que seja muito mais brilhante que voc.
       Sem saber como aceitar o elogio, Clint optou por ignor-lo:
       - O que estiveste fazendo, moa? Andando pelo povo com os olhos fechados?
       - Como?
       - Do contrrio, como pode ser que no tenha visto meu irmo.
       Incmoda, Rachel ruborizou.
       - Equivoquei-me. Claro que o vi, mas nunca de perto.
       A Clint pareceu incrvel que Matt, que atraa s moas bonitas como o mel s moscas, tivesse passado inadvertido por Rachel. Era indiscutvel que se tratava
de uma moa bonita.
       - Bom, meu amor, me acredite, no s brilha mais que eu. Ter que julgar pelas reaes das mulheres, poderamos dizer que h um eclipse total. Tome cuidado
de no deixar se levar por suas bajulaes. Seja por engano ou no, est casada comigo, no com ele.
       Estalou a lngua e incentivou o cavalo a andar mais rpido. Nesse mesmo momento, um coelho saltou de um grupo de arbustos, sobre o caminho. O brusco movimento
assustou o cavalo de Clint, e antes que este pudesse reagir, o potro retrocedeu e agitou no ar os cascos dianteiros. Rachel no tinha estribos no que equilibrar-se,
e a nica coisa que a segurava aos arreios era o brao do prprio Clint. Temendo que pudesse cair, segurou-a com mais fora, enquanto se esforava por recuperar
o controle. Quando, por fim, o enorme animal tranqilizou, Clint comprovou que, na confuso, tinha deslocado a mo para cima, e agora posava pela metade sobre um
dos seios de Rachel: evidentemente, aquela familiaridade no agradou sua esposa. Ou talvez porque esse estpido cavalo a tinha assustado muito. A moa ainda continha
o flego.
       - Rachel?
       Com muito tino, deslizou a mo outra vez ao lugar anterior, e se inclinou um pouco para frente para poder ver seu rosto. Ao ver a expresso, os olhos fechados
com fora, a doce boca tremente no evidente esforo por no chorar, oprimiu o corao.
       - Rachel... - disse, em tom mais suave. - Est bem.
       - No o esmagamos?
       A pergunta o pegou despreparado, e deu voltas na cabea, sem saber do que estava falando.
       - Esmagamos o que?
       - O pobre coelho - perguntou, com voz dbil.
       O pobre coelho? Clint observou seu rosto plido sem convencer-se ainda de que tinha entendido bem. Embora a moa tivesse nascido e se criado na cidade, certamente
no devia ignorar por completo as realidades da vida, e o guisado de coelho estava entre as primeiras da lista.
       - No, no o esmagamos - falou, com voz extremamente constrangida - Cruzou o caminho sem que o pelo sasse do lugar.
       Rachel soltou o ar e abriu os olhos. Apoiou uma mo pequena na garganta engoliu com esforo e esboou um sorriso deprimido:
       - Graas a Deus. So umas criaturas to doces, no? Eu adoro como movem o nariz.
       Depois de observ-la um momento, Clint deu uma sacudida mental. No tinha sentido pensar o pior. No porque a preocupasse um coelho silvestre teria escrpulos
em preparar um guisado, de vez em quando.
        obvio que no.
6

       O rancho Rafferty ficava entre um grupo de pinheiros altos, em um vale estofado de erva, rodeado completamente por montanhas arborizadas. Assim que ficou
bastante perto para ver com clareza, a Rachel pareceu maravilhoso.
       Enquanto Clint guiava o potro para a casa, Rachel no pde se livrar da sensao de que ali era onde devia estar. Foi como se tivesse estado toda a vida esperando
esse momento, e, talvez, esse homem. Que loucura. Era absurdo. Este matrimnio era uma brincadeira e estava destinado a dissolver-se. Pensar que podia ser de outro
modo era uma loucura total.
       Quando Clint levou a cavalo at a borda do alpendre, Rachel viu uma mancha branca perto de um toco de estranho aspecto. Esquadrinhando com mais ateno, soube
que o que via era um bloco de cortar lenha, com plumas de galinha presas na base. Sentindo uma imediata inquietao, passou a vista para a casa em si. Algo que a
distrara da imagem de sangue e facas que, sem dvida, devia ter acompanhado a recente matana.
       A casa era a simplicidade em si: uma estrutura oblonga de troncos sem gastar e teto de casca de cedro. No havia maneira de v-la bela, por mais imaginao
que fizesse, mas podia ser encantada se se fizesse algo por tentar por embelez-la.
       Dizer que no tinha existido nenhum intento foi, para Rachel, subestimar a realidade. Mas ao contrrio, por isso se via. Inclusive sem os culos, distinguia
uma velha banheira oxidada num flanco do alpendre dianteiro, com uma tabua de lavar gasta apoiada num extremo, dentro, e um par de meias trs-quartos com sujeira
incrustada, pendurada na borda. Perto havia um saco de farinha jogado, do qual havia sido derramado um pouco do contedo, umedecido e pegajoso pela chuva e depois
endurecido como uma pedra, pelo sol. Atrs do saco de farinha, um saco pela metade usado de batatas estava apoiado contra a casa, perto da porta principal. Em geral,
tinha o aspecto de um lugar habitado por um bando de intrusos, no muito limpo.
       - Faz falta um pouco de limpeza - disse Clint, a modo de desculpa.
       - Oh,  encantador. Srio. Eu gosto das casas de troncos. Voc no?
       Para falar a verdade, Rachel preferia as de tbuas, mas no tinha intenes de ferir os sentimentos de Clint.
       Ao olhar para trs, sua vista se posou na boca firme de seu marido, e no pde deixar de recordar como se sentou nos braos dele na noite anterior, como tinha
sucumbido aturdida por seus beijos. Evocando-o perguntou como seria se voltasse a beij-la agora. Em pleno dia, as carcias de Clint seriam aborrecidas e inspidas
como as de Lawson? Ou, como tinha acontecido na noite passada, o primeiro contato com seus lbios tiraria o flego? Talvez fosse melhor no averiguar. Molly no
era a nica moa que tinham ferido o corao: a Rachel tambm tinha, e se algo aprendeu da experincia foi que as mulheres como ela no seriam atrativas a homens
arrogantes.
       Quando Clint foi para frente para deixar as rdeas sobre os arreios e pren-lo, sentiu o jogo potente de seus msculos no peito e os braos. Um estremecimento
correu pelas suas costas quando seu marido desmontou e estirou para ajud-la a descer.
       - Posso descer sozinha.
       Mas o protesto chegou tarde. Antes que pudesse piscar sequer, ele a tinha segurado pela cintura. Rachel apoiou as mos nos ombros e sustentou o olhar, enquanto
ele a iava com facilidade dos arreios.
       - No quero que arrume isso sozinha - reps, com voz rouca - No esquea que aqui somos oito para te ajudar.
       Alegrou-a advertir que sua expresso solene, quase sria, ficou desmentida por um leve sorriso que brincou nas comissuras. Ocorreu que, talvez, sorrisse porque,
de algum jeito, tinha percebido que Rachel se perguntava como seria quando voltasse a beij-la. Um rubor comeou a subir do pescoo.
       Clint estava de costas ao sol, com o chapu obscurecendo as faces queimadas. Inclusive nessa sombra, seus olhos cinzentos tinham um resplendor brilhante.
Quando a olhou, ela se sentiu incapaz de mover e no estava segura de querer faz-lo. Como comprovou na noite anterior havia algo em Clint que a cativava. O enigma
era que no sabia o que era nem por que, mas quando a olhava com esses quentes olhos azul cinza, sentia-se como invertebrada. Mas isso era uma estupidez.
       Segurando-a pelo cotovelo com uma mo grande e direita, Clint a ajudou a subir o alpendre.
       - Se soubssemos que teramos companhia, teramos limpado. - Para acentuar, deu um chute no saco de farinha. - Como o rancho leva muito tempo de trabalho,
a casa est um tanto descuidada. - Conduziu-a at a porta, e se inclinou rodeando-a, para abri-la com o p. - No precisa se considerar uma visita, Rachel. A partir
de agora esta  sua casa.
       Depois abriu a porta de uma cozinha to lotada e desordenada que desafiava todo intento de descrio. Uma mesa insolitamente larga, com a superfcie enterrada
sob pilhas de lixo que, por sorte, Rachel via confusa, dominava o centro do ambiente. Se no tivesse sido por um ou outro prato sujo intercalado, teria acreditado
que na realidade no a usavam para comer.
       - Oh, caramba...
       A mo de Clint se estendeu no seu brao.
       - Os rapazes e eu ajudaremos a limpar tudo - tranqilizou-a. - E, ao mesmo tempo, eu poderia pr umas pranchas de madeira nas paredes. Sei que s mulheres
gostam de revestir com papel e colocar quadros, e essas coisas.
       Rachel se esforou para ver. O interior da casa parecia muito penumbroso, possivelmente porque as paredes de troncos estavam enegrecidas pelo tempo. Uma metade
da cozinha estava separada do fundo da casa por uma parede, e a outra se abria para uma zona de saguo, criando uma sala de estar em forma de L, sobre a qual aparecia
um grande mezanino.
       Rachel esperava que, se os irmos de Clint fossem ajud-la a limpar, trouxessem consigo ps de folha larga. Pensando melhor, talvez nem as ps bastassem.
At onde conseguia ver, em cada rinco havia montculos de lixo. Jornais velhos, latas de comida vazias, roupa suja, livros escolares, lousa... Dava a impresso
de que algum havia esvaziado o contedo da casa no cho, houvesse agitado e logo afastado a mistura para os lados, para deixar espao por onde caminhar. Nunca,
em toda sua vida, tinha visto uma desordem to espantosa.
       De repente, dentre os escombros, apareceu um menino de cabelos de bano. Esfregando um olho com o punho, observou Rachel com o outro.
       - Voc quem ?
       Quando se aproximou o suficiente para que Rachel pudesse v-lo melhor, ela acreditou que nunca tinha visto um menino to bonito. Sups que teria por volta
de seis anos e era exatamente como imaginava Clint com essa idade, compacto e magro, de pele bronzeada e com um arbusto de cabelo negro.
        - Ol - disse, inclinando-se para saud-lo a altura dos olhos do menino. - Meu nome  Rachel. E o seu?
       - Cody.
       Tirou o punho do olho e teve que piscar para que as pestanas pegajosas se separassem. Rachel viu que um risco de sujeira cruzava uma das bochechas. O menino
a contemplou por um longo momento, com expresso mais sria do que podia esperar de um menino de sua idade. Com um a testa enrugada, acrescentou:
       - Tenho quase sete anos.
       - Faltam nove meses para isso - corrigiu Clint. - E por que est dormindo no saguo, menino? E no falemos de que j  quase meio-dia.
       - Ontem  noite ningum me despertou para que fosse dormir l em cima - respondeu Cody, acomodando uma tira do suspensrio sobre o ombro. - E no me chame
de "menino", Clint. Sou grande para que me chame como aos meninos pequenos.
       Rachel no pde conter um sorriso.
       - Eu acreditei que tinha, pelo menos, oito - mentiu. - Deve ser muito alto para sua idade.
       Cody a recompensou com um sorriso de prazer que mostrou a ausncia de alguns dentes da frente.
       - Clint diz que s chego ao joelho.
       - Sim, bom, tendo em conta como so altos os joelhos de seu irmo, podemos dizer que  alto para sua idade - comentou Rachel, diplomtica. - Acredito que
a grande altura  uma marca de sua famlia. - Lanou um olhar a Clint. - No me disse que tinha um irmo to...
       Esteve a ponto de dizer "pequeno" mas se conteve.
       - Crescido? - props Clint.
       Rachel sorriu e incorporou.
       - Exato.
       Clint lanou um olhar significativo.
       - Como disse, tenho minhas razes para querer uma esposa.
       Ao conhecer Cody, Rachel compreendeu o desejo de Clint de fazer algo para obter a felicidade do menino, inclusive ser o noivo de um casamento celebrado a
ponta de revlver. O problema era que, certamente, seus sentimentos mudariam quando soubesse que ela era meio cega e, se no, quando a visse com os culos. Como
o problema visual era muito severo, tinha que usar umas lentes muito grosas, que a despojavam de toda beleza, embora fosse a mulher mais formosa do mundo. Rachel
tinha aprendido os homens bonitos queriam estar com mulheres belas, coisa que ela no era com os culos em cima do nariz.
       Antes que pudesse inteirar-se de tudo, um moo maior desceu a toda velocidade pela escada que dava  cozinha. Ia abotoando os jeans e ao ver Rachel paralisou.
       - Maldio, Clint! - apressou a terminar de aboto-los. - Poderia ter avisado que tnhamos visita.
       - Este  Daniel - disse Clint como apresentao; olhou primeiro Rachel e depois, assinalando com a cabea o irmo, adicionou: - Quatorze para dezoito. Desculpe
sua linguagem, mas fiquei sem sabo.
       Rachel no teve dvida em acreditar, pois era evidente que o sabo faltava. A camiseta de Daniel, que tinha sido cinza em outros tempos, agora se via mas
bem castanha. Ainda inclinada ante Cody, ofereceu-lhe um sorriso amistoso.
       - Ol, Daniel. Alegra-me conhec-lo.
       O moo inclinou a cabea.
       - O mesmo para mim.
       Parece que as boas maneiras eram outra rea que Clint tinha se descuidado. Ficou de p, observou a cozinha e ficou abatida. Clint tinha aceitado o matrimnio
porque necessitava de uma mulher na casa: no fazia segredo disso. Em sntese, oferecia-lhe uma vida ali em troca de suas habilidades como dona-de-casa e cozinheira:
era to simples.
       Rachel sabia que a maioria das mulheres se sentiriam insultadas. Quereriam que um homem se sentisse atrado por sua aparncia; que as amasse por sua personalidade,
que se casasse por motivos do corao. Mas Rachel tinha aprendido fazia muito tempo a no esperar nenhuma dessas coisas. O oferecimento de Clint no a tinha ofendido.
Ao contrrio, sentia-se excitada, sem falar de que estava tentada de aceit-lo.
       Havia s um problema. Um grande problema. Desde a morte de sua me quando Rachel tinha quatro anos, foi a senhora Radcliff, a governanta que contratou seu
pai, que se ocupou do funcionamento da casa. Como era uma mulher que no gostava que ningum se intrometesse, no encorajou Rachel nem Molly que a ajudassem em nenhuma
das tarefas. Como conseqncia, o conhecimento das tarefas domsticas que tinha era limitado. Seguindo uma receita passo a passo, podia cozinhar pratos singelos,
e sups que o senso comum a ajudaria com quase todas as tarefas relacionadas com a limpeza. Mas e a lavagem de roupa? Rachel tinha enxaguado algumas vezes suas meias
de algodo, mas, fora disso, jamais lavou, engomou nem passou um s objeto. Por mais tentadora que fosse a exposio de Clint, no sabia se estava  altura do desafio.
       Por outra parte, esta era sua oportunidade - talvez a nica - de ter o que as outras garotas davam por certo: um marido bonito e jovem, que acelerasse o pulso
e fizesse ccegas na pele. Durante muito tempo, Rachel tinha se resignado a conformar-se com a segunda ou a terceira alternativa: casar-se com Lawson. Fazer o papel
de esposa do ministro. Fingir que no queria nem necessitava de excitao em sua vida. E agora um salto do destino tinha dado a possibilidade de ter mais. Muito
mais. Cada vez que recordava o beijo compartilhado com Clint, estremecia de expectativa.
       Que loucura! Deveria saber que no podia se permitir abrigar semelhante esperana. Acaso no tinha aprendido nada na ltima vez que feriram seu corao? Na
verdade, era to idiota que estava disposta a arriscar outra vez a sofrer a mesma dor? Era absurdo pensar que podia ocultar por muito tempo a Clint e a seus irmos
seu defeito visual, ainda por pouco tempo sequer. Cedo ou tarde, algum deles a surpreenderia usando os culos, e Clint saberia a verdade: que era meio cega e, para
compensar, tinha que usar essas lentes to horrveis. E quando isso acontecesse, acabariam os beijos que a faziam estremecer. Certamente Clint daria qualquer desculpa
que ocorresse para desfazer-se dela.
       A menos que... possivelmente... Oh, Deus, era absurdo pensar, sequer. Mas tinha ouvido falar de outros matrimnios que comearam vacilantes e terminaram muito
bem. Se at seu prprio pai admitiu, uma vez, que, a princpio, a me no estava muito entusiasmada ante a idia de casar-se com ele.
       Mas, claro, mame no era cega como um morcego. Mesmo assim, e se conseguisse manter em segredo o uso das lentes? A nica ocasio em que lhe resultavam imprescindveis
era para ler, e podia tratar de no faz-lo diante de ningum. Se tomasse cuidado, muito cuidado, poderiam passar meses at que Clint soubesse a verdade, e possivelmente
at ento teria se afeioado tanto dela que j no se importasse que usasse culos.
       Embora o plano parecesse louco, uma olhada a Clint a fez decidir. Sem lugar para dvidas, era o homem mais bonito que tinha conhecido. Para uma moa como
ela, que fazia tempo que j no sonhava, a oferta era irresistvel. Tinha que aproveitar a oportunidade. E se ferisse outra vez o corao, pacincia. Ao menos no
se iria  tumba com vontades de chutar a si mesma por no haver tentado.
       Uma vez resolvida, Rachel avaliou rapidamente a desordem que a rodeava. Em toda parte onde olhava parecia haver pilhas de pratos sujos Tinha o pressentimento
de que sua habilidade de subir as escadas levando um livro em equilbrio sobre a cabea no serviria de muito no lar dos Rafferty.
       - Eu, , no sei muito bem por onde comear... - voltou-se para Clint. - Tinha dito que tinha tarefas para fazer?
       - Poucas - apressou a tranqiliz-la. - Como  domingo, deixamos a maior parte do dia para as tarefas dentro de casa. Assim que terminar, virei te ajudar.
       - Tm po assado?
       Rogou que tivessem, porque em sua vida nunca tinha preparado uma fogaa.
       - No. Em geral, fazemos bastante aos domingos para que dure toda a semana. Como te disse, o domingo  o dia que dedicamos a casa.
       Rachel contraiu o estmago.
       - Espero que tenham um livro de cozinha, pois no sei de cor os ingredientes para fazer o po.
       - No exatamente um livro de cozinha, mas sim tenho a coleo de receitas que minha av e minha me anotaram durante anos. Nada muito elegante, s umas folhas
de papel soltas, guardadas em uma caixa de madeira que fez meu pai.
       - Tem uma para po?
       -  obvio. Se no, estaria perdido. Eu tampouco sei os ingredientes de cor.
       Rachel relaxou um pouco. Teria xito na culinria sempre que contasse com as receitas. Com respeito  limpeza, seria questo de guiar-se pelo nariz. O problema
principal se apresentaria com a lavagem de roupa. Nisso sim, sem dvida, necessitaria de ajuda. Talvez se fizesse mais ou menos bem todas as demais coisas, Clint
no importasse muito com isso.
       De maneira to repentina que a assustou, Clint vociferou:
       - Todos a coberta, aqui! J  quase meio-dia! Hora de ir trabalhar!
       Do mezanino chegaram rudos de elsticos que rangiam e ps que iam ao cho de madeira. Em menos de um minuto, apareceu uma cabea escura no alto da escada.
Logo outra. Antes que Rachel desse conta, quatro jovens muito parecidos estavam de p diante dela. Por turno, aproximaram para unir-se  fila, com Daniel e Cody.
 chegada de cada um, Clint anunciava seu nome e sua idade.
       - Col, dezessete. Jeremiah, vinte e quatro. Joshua, dezenove. Zach, vinte e dois.
 medida que cada um dos moos era apresentado, Rachel sorria e inclinava a cabea. Quando Clint terminou, ela disse:
       - Alegra-me conhecer todos.
       - A todos, no - retificou-a Cody. - Falta Matt. Ele tem vinte.
       - Ah, sim, Matt - disse Rachel, cautelosa. - Como pude esquec-lo?
       Cody franziu o nariz e contemplou especulativamente o irmo maior.
       - Voc no disse quantos anos tem.
       Para surpresa de Rachel, Clint se situou na frente dela e passou o brao pelos seus ombros:
       - Eu tenho vinte e sete, garoto, e como sou o bastante grande para me estabelecer, foi isso, precisamente, o que decidi fazer. Esta manh, Rachel e eu nos
casamos.
       - O que?
       - Por que no nos disse?
       - Eu acreditei que ia ser seu padrinho!
       - Por todos os diabos!
       - O que  que tem feito?
       - Acreditei que Lawson era o prometido dela.
       - Ganhei a dianteira de Lawson e a pedi primeiro - disse Clint - Eis aqui uma lio para vocs: no deixem por muito tempo livre, leve e contente uma moa
bonita, pois, assim que descuidem, casar com outro.
       - Eu no sabia que conhecesse to bem Rachel - disse Zach.
       - Por que no nos disse que pensava casar com ela?- perguntou
       - Ah, bravo! - exclamou Cody, excitado. - Isso quer dizer que vai ficar aqui?
       Clint levantou uma mo.
       - Sim, ficar - assegurou. E adicionou para os maiores - Para responder todas as perguntas, simplesmente decidimos nos casar isso  tudo. Conto com que todos
vocs faro Rachel sentir que  bem-vinda.
       - Claro que  bem-vinda! - assegurou Cody. - Sobretudo se sabe fazer umas bolachas como as que Clint trouxe o ano passado da festa da igreja.
       Rachel piscou. Bolachas?
       -  obvio que sei fazer bolachas - respondeu - Sempre que houver uma receita entre os papis que mencionou Clint.
       Um pouco menos entusiastas, mas com a mesma cordialidade, os Rafferty maiores deram as boas-vindas, e Jeremiah, que seguia Clint em idade terminou com:
       - Estaremos orgulhosos de chamar voc de irm, Rachel. Bem-vinda a seu novo lar.
       Irm. Ao ouvir a palavra, Rachel sentiu que lhe ardiam os olhos suspeitamente. Piscou um pouco nervosa, convencida de que acreditariam que era louca por que
umedecia os olhos por to pouco. O que passava era que sempre tinha desejado um irmo e agora tinha sete, quatro deles maiores que ela mesma. Era quase como se Clint
tivesse sabido a falta que fazia um irmo mais velho para que cuidasse dela.
       - E eu gostarei de chamar de irmos todos vocs - disse com a voz constrangida.
       Uma vez cumpridas as cortesias, Clint tirou o brao que rodeava Rachel e comeou a enumerar o que esperava.
       - Rachel limpar este lugar - comeou. - Quero que todos a ajudem do modo que possam. Entendido? Jer, voc ir imediatamente l fora e trar as coisas de
Rachel para o dormitrio. Voc, Joshua, carregar os baldes de gua para ela na bomba, para esquentar sobre a cozinha. Zach, conseguir todos os elementos que necessitar:
vassoura, trapos limpos, qualquer outra coisa que queira. Col, enquanto eles fazem isso, voc, com Daniel e Cody, comece a recolher as coisas e as guardar. Em seus
respectivos lugares, no em qualquer lado, ?. Cody: nada debaixo da cama entendido?
       Quando deixou de dar ordens, Rachel sentia a cabea dar voltas. Deu por terminada a distribuio de tarefas com um:
       -E agora, escutem todos. Desde este momento, a palavra de Rachel  lei nesta casa. Estou seguro de que ela estabelecer algumas regras novas e espero que
todos faam o que ela diz, exatamente como se fosse eu. Entenderam-me? Nada de rabugices com ela, ou darei chutes nos traseiros.
       Como Zach era o que estava mais perto de Rachel e podia v-lo com clareza, viu que a olhava com expresso solene. Mas, depois de um instante, sorriu e fez
uma piscada irreverente. Era bvio que o irmo mais velho no o intimidava muito.
       Clint esfregou as mos e a olhou arqueando uma sobrancelha, com expresso interrogante.
       - Esqueci-me de algo que queria dizer?
       - S obrigada. - Rachel sorriu. - Por me fazer sentir to bem-vinda.
       Joshua interveio:
       - Bem-vinda? Rachel,  um milagre que no nos ajoelhemos para dizer obrigado! Faz tanto que aqui no se come uma comida decente que j esquecemos como .
       Rachel rezou para no desiludi-los. Mas primeiro o principal. Antes de poder provar a mo na massa, tinha que limpar a cozinha. Por sorte, tinha muitos ajudantes.

7

       Duas horas depois, Rachel tinha limpado a cozinha o suficiente para comear a preparar a mistura para a massa do po. Depois de obter ajuda de Cody para encontrar
a caixa de receitas que Clint tinha mencionado, anunciou a todos j era hora de descansar, preferencialmente num lugar que no fosse a cozinha.
       E quando se ofereceram, solcitos, a ajud-la com a comida, Rachel os afastou, dizendo:
       -No, no!  mais divertido assim. Quando cozinho, no quero ningum na cozinha. Muitos cozinheiros fazem um guisado muito salgado, j sabem.
       - Nunca ouvi esse dito - comentou Joshua.
       Tampouco Rachel, mas cumpriu seu objetivo, que era fazer sair os moos da cozinha para poder colocar os culos sem que a vissem, e ler a receita do po.
       Quando saiu o ltimo dos Rafferty, colocou a mo no bolso para tirar os culos. Algo agudo cravou no seu dedo
       - Ai!
       Tirou a mo, viu uma gota de sangue e franziu o sobrecenho, aflita.
       - Em nome do cu, o que aconteceu?
       Desta vez com mais cuidado, colocou a mo no bolso. Quando seus dedos se fecharam sobre os arreios dos culos, sentiu como se casse o corao, mas no at
os joelhos, que era o que estava acostumado acontecer quando acontecia algo errado, mas ao cho. Os culos! A armao estava retorcida, sem possibilidade de concerto
e, ao tir-los do bolso, viu que faltavam as duas lentes. Colocou a mo mais profundamente, e logo entendeu o porqu.
       As duas lentes estavam quebradas, e foi uma parte do cristal que tinha cravado no dedo.
       Perplexa, Rachel no conseguiu fazer outra coisa que ficar ali, parada, olhando sem ver os culos danificados. Como tinha acontecido? Assim que perguntou,
recordou que na noite anterior tinha cado na igreja: sem dvida, foi ento quando se quebraram as lentes.
       Quando passou a primeira impresso, voltou a vista  caixa de receitas e entrou em pnico. Mas logo o dominou. Ler sem lentes era quase impossvel, mas no
de todo. Se colocasse a folha escrita diante de seu nariz, poderia distinguir as letras. E, embora fosse pesado, a cavalo dado no se olhava o dente.
       - Oh, demnios! - sussurrou baixinho. - Por que tinham que ser as lentes? Por que no um brao ou uma perna? Nesse caso, estaria em melhor situao.
       Ps outra vez os culos quebrados no bolso e avanou decidida para a caixa de receitas, com o rosto elevado. Teve que procurar, mas ao fim encontrou a receita
de po. Esquadrinhando de perto cada ingrediente at que pde distinguir as letras e as quantidades, os arrumou para preparar massa de po para trs fornadas. Deixou
trs tigelas com fermento para levar sobre a cozinha, que ainda tinha brasas da preparao do jantar que tinham deixado para os meninos na noite passada, amassou
e deu forma a seis fogaas. Recordou que a senhora Radcliff sempre lubrificava as fogaas com graxa de porco derretida e as deixava sobre a cozinha morna at que
duplicavam seu volume. Depois de achar trs toalhas de linho limpa - tarefa nada fcil, - Rachel imitou a governanta. Quando, por fim, pde dar um passo atrs para
admirar os frutos de seu trabalho, sentiu-se to orgulhosa como se tivesse dado a luz a seis meninos.
       Voltou para a caixa de receitas e se dedicou a encontrar algo para preparar para o jantar. Como odiava preparar carne, pois sabia que machucava os animais,
decidiu pelo guisado de carne de veado... mas sem veado,  obvio. "Ah, sim", tranqilizou-se. "Isto vai sair muito bem", pensou, enquanto comeava a limpar as verduras.
Um delicioso po quente e guisado para jantar: causaria muito boa impresso aos Rafferty, grandes e pequenos.

       - Jesus Cristo!
       Quando entrou na cozinha, Clint no podia acreditar no que viam seus olhos. O fogo tinha se convertido num gigantesco e monstruoso cogumelo! Pelo menos era
o que parecia, a primeira vista. Olhando melhor, viu que o cogumelo era uma espcie de fermento. Montanhas de fermento que jorravam pelos flancos da estufa e gotejavam
em pedaos pegajosos para o cho. Useless, o co pastor mestio da famlia estava arrancando tiras dessa substncia e comendo.
       - Rachel?
       Percorreu a cozinha com a vista e comprovou que tinha sofrido uma transformao bastante mais favorvel que o fogo, graas ao cu. At a janela, sobre a
pia seca, resplandecia. No meio da mesa, com aspecto quase real, havia uma panela com verduras descascadas e cortadas. Sups que seriam para um guisado ou uma sopa
e viu que estava certo assim que viu a caixa de receitas aberta. A que estava em cima das demais era a do guisado de veado de sua me.
       Guiando-se pelas vozes Clint comeou a procurar sua esposa. Encontrou-a no piso de acima, com os irmos. O nico Rafferty que faltava era Mathew, que ainda
estava no povoado, recuperando-se da ressaca, sem dvida. Rachel estava sentada no centro da cama de Zach, suas esbeltas costas apoiadas na parede de troncos, as
saias colocadas debaixo das pernas cruzadas, por recato. Os seis meninos - por mais que crescessem, para Clint sempre eram os meninos - estavam ao redor dela, quatro
sentados ao estilo ndio, sobre a cama, dois ajoelhados no cho com os cotovelos sobre o colcho. No centro do crculo estava desdobrado um mao de cartas.
       - Aqui tem, rapazes, baixo e sujo - disse Cole.
       - Baixo e o que? - perguntou Rachel, risonha. E ao Jeremiah: - Est seguro de que existe isso que chamam sorte de principiante? Jamais poderei pagar o que
lhes devo, rapazes.
       Esquecendo por um momento a confuso de baixo, Clint apoiou um ombro contra a diviso, uma das duas meias paredes que dividiam o mezanino em trs reas de
dormir proporcionais, para seus irmos. Por uns instantes, permitiu-se posar um olhar clido sobre Rachel e logo contemplou seus irmos. Ao que parece, estavam ensinando-a
a jogar pquer e, enquanto isso, depenando-a. Em outra ocasio igual, os teria repreendido, mas fazia tanto tempo que no os via relacionando-se assim e divertindo-se
que no teve coragem. Embora no fosse muito partidrio dos jogos de azar Clint estava  convencido da necessidade de divertir-se, e era evidente que todos estavam
passando muito bem.
       - Aparece um par de ases - disse Cole, dando uma ltima carta virada para acima a Zach. - A grande flauta, note neste Rei! Possvel escada! - exclamou, dando
a Cody. - E a dama atrai uma dama! Note neste par de cartas! - gritou, golpeando com a ltima carta de Rachel. - Ouvi voc perguntar se existia sorte de principiante?
Querida, olhe isto. A menos que algum tenha uma carta impressionante escondida na manga at agora voc  a grande campe.
       Rachel levou uma mo ao peito, com expresso inocente muito genuna para ser fingida.
       - Srio? - inclinou-se para olhar, entrecerrando os olhos, uma pilha de pedras que havia sobre a cama. - Quanto ganharei?
       Cody se inclinou adiante para contar rapidamente.
       - Cinqenta dlares! - disse, entusiasta - Uy! Se fosse dinheiro verdadeiro, seria rica.
       Clint se tranqilizou: pelo menos no apostavam com dinheiro de verdade. Sups que deveria estar agradecido por umas tantas benes.
       Nesse preciso momento, Rachel o viu.
       - Clint,  voc?
       Ele riu:
       - Caramba, moa, acaso  cega? Claro que sou eu.
       Um leve rubor apareceu nas bochechas de Rachel.
       - O chapu tampava um pouco o seu rosto - explicou. - No podia v-lo bem. Alm disso - assinalou aos irmos com um gesto, - olhe como so. Nunca vi tanta
gente to parecida.
       Isso fez recordar a Clint as boas maneiras e tirou o chapu.
       - Lamento interromper o jogo, mas l em baixo h uma confuso. O que  isso que est todo derramado no fogo?
       Os olhos do Rachel se aumentaram ainda mais, se isso era possvel. Atirou as cartas, saltou da cama e foi afastando os moos a cotoveladas.
       - Meu po!
       - Po? Isso  po? - Clint riu a gargalhadas. - Quanto fermento ps?
       Rachel passou correndo junto dele, mas ele a segurou pelo brao antes que chegasse  escada.
       - , aqui. V devagar. No tem por que cair.
       F-la retroceder e desceu antes que ela, para proteg-la.
       - Cuidado - advertiu, com a vista fixa nos ps pequenos. - Os degraus so perigosos at que se acostume.
       Ao chegar  cozinha, ficou imvel, calada, olhando o fogo.
       - Oh, no! Meus formosos pequeninos! Que demnios aconteceu?
       Useless, aparentemente sem fome pela primeira vez em sua desencaminhada vida, lambeu as mandbulas salpicadas, deixou-se cair junto ao fogo e gemeu. De repente,
ocorreu a Clint que no deveria ter deixado que o co continuasse comendo a massa.
       - Deus - resmungou baixinho, olhando a pana de Useless. - Espero que no adoea.
       Rachel soprou, indignada:
       - Quer dizer que meu po poderia adoec-lo?
       - Estava pensando que, talvez, o fermento no seja bom para os ces. - Tirou os olhos do animal - Tenho a impresso de que ps muito.
       - O que dizia a receita: uma xcara por fornada.
       - Uma xcara? - assobiou. - No  de estranhar que haja massa por toda parte, cu. Deve ter lido mal os ingredientes. Na receita de minha me diz um quarto
de xcara de fermento por fornada.
       Nesse momento, desceram todos os rapazes pela escada e ao ver o desastre na cozinha, abriram os olhos, assombrados:
       - Uy! - exclamou Cody - Cozinhamos tudo?
       - No, Cody. No acredito que fique comestvel quando arrancarmos tudo para limpar - respondeu Clint - Useless  o nico que comer po esta noite.
       - Oh, maldita seja! - replicou o menino - Todo o dia fiquei com gua na boca pensando no po quente.
       Rachel parecia to aflita que Clint se apressou a dizer.
       - No  to grave, Rachel. Esta noite poderemos comer bolachas e amanh far o po.
       Depois disso, enrolou as mangas da camisa e se dedicou  tarefa de limpar o desastre. Dez minutos depois, j no opinava que no era to grave. Nunca tinha
visto tanta massa. E mais ainda: a maior parte se colou ao ferro quente do forno e estava to colada que era quase impossvel tir-la. Ao final, recorreu  ajuda
de uma faca.
       - Est segura de que s colocou uma xcara de fermento por fornada? - perguntou a Rachel-. Digo que nunca em minha vida vi quinze xcaras de farinha ocupassem
tanto espao.
       - Nove - corrigiu - Na receita dizia trs xcaras por fornada nove no total.
       Clint interrompeu a tarefa para olh-la, pensativo.
       - No, cu, na receita diz cinco xcaras de farinha por fornada o que multiplicado por trs d quinze.  evidente que no s leu errado a quantidade de fermento.
Acaso tem vista curta, ou algo assim?
       Ao ouvi-lo, as bochechas de Rachel se avermelharam e em seus olhos apareceu um brilho indignado.
       - Caramba, no, no tenho vista curta!
       A julgar pela expresso da moa, Clint se deu conta de que tinha cometido um engano ao perguntar. As mulheres eram muito delicadas nessas coisas. Rapidamente
pensou no modo de arrumar as coisas e decidiu no voltar a tocar no tema da vista de Rachel.
       - Tem razo. Foi uma tolice de minha parte. No  estranho que tenha lido errado, porque o trs e o cinco so muito parecidos, e, como eu usei essa receita
tantas vezes,  provvel que a tenha manchado com os ingredientes em cima dos nmeros, e por isso seja difcil de ler.
       Com expresso de alvio por haver-se liberado da acusao, Rachel fez um gesto de afirmao.
       - Sim, estou segura de que foi isso - Havia muitas manchas em cima da receita. - Espremeu o trapo que estava usando. - Lamento que tenha sujado tanto,Clint.
Srio. No  necessrio que me ajude, posso limpar sozinha.
       Clint a via adorvel a, de p, que por nada do mundo teria deixado que terminasse sozinha. Depois teria que sair e ordenhar, mas, fora disso, pensava em
ficar dentro de casa o resto do dia. No ocorria nenhum motivo para separar-se de sua noiva. At o anoitecer teria pouco tempo para que se conhecessem melhor, em
sua opinio. Se pensava em fazer amor antes que amanhecesse, tinha que terminar rpido.

       Essa noite, quando Clint se sentou para jantar, quase rompeu um dente com uma das bolachas de Rachel e tambm esteve a ponto de ficar cego no esforo por
encontrar carne no guisado. Depois de saborear vrios bocados que, para seu gosto, estavam muito salgados, chegou a concluso de que no tinha nada de carne. Contemplando
sua esposa atravs da larga mesa sorriu: comia tranqilamente sem dar a impresso de que faltasse algo.
       - Rachel, a partir de hoje, quando necessitar de um pouco de carne, no ter mais que pedir aos rapazes, e algum deles ir conseguir isso Temos carne de vaca
e veado em quantidade, no defumador.
       - Carne? - Olhou-o com olhos assustados, a colher a meio caminho dos lbios - Para que precisaria de carne?
       O sorriso do Clint se aprofundou:
       - Para cozinhar?
       Rachel ps outra vez a colher na tigela.
       - Oh, no, no poderia.
       - O que  o que no poderia?
       - Cozinhar carne.
       Essa resposta fez com que todas as colheres parassem no ar. Clint olhou ao redor e viu que todos seus irmos, excluindo Matthew, que ainda no tinha chegado,
olhavam  noiva com expresses perplexas. Compreendia-os: ele mesmo no estava seguro de hav-la entendido bem.
       - Entendi bem? Disse que no pode cozinhar carne? - perguntou, desejando esclarecer coisas.
       A moa limpou delicadamente os lbios com um dedo, demonstrando que se sentia perdida sem guardanapo.
       - Assim . Eu no como carne.
       Com muita dificuldade, Clint conteve uma gargalhada.
       - Por que no?
       Os olhos j grandes de Rachel aumentaram mais ainda.
       - Como por que no?  muito cruel! - Percorreu com a vista os irmos. - Custa-me acreditar que um s de vocs seja to malvado para ir ao bosque e matar um
inocente cervo s para poder comer carne no guisado. - Dedicou-lhes um sorriso radiante. - E assim, sem carne, tem gosto excelente!
       Clint estava seguro de que brincava.
       - Rachel, meu amor, todo mundo come carne.
       - Todo mundo, no. Eu, certamente, no como. E, se eu devo ser a cozinheira nesta casa, vocs tambm no.
       Silncio atnito. Clint lanou olhares significativos a seus irmos, e esclarecendo-a voz, disse:
       - Acredito que deveramos falar disso mais tarde.
       - No h nada que falar - reps ela com doura. - A menos que algum de vocs se oferea para cozinhar. - Olhou aos comensais. - A nenhum incomoda, no ?
Refiro-me a comer sem carne.
       Quando todos os seus irmos negaram com a cabea e exclamaram:
       - No, no nos incomoda! - quase em unssono, Clint quase no podia acreditar.
       Olhou-os com uma expresso que demonstrava sua chateao.
       - Todos vocs gostam da carne. Como podem dizer to tranqilos, que no importa?
       Josh disse:
       - Bom, Algumas vezes por semana poderia um de ns cozinhar, e nessas noites comeramos carne.
       - Poderemos comer ovos? - perguntou Cody, melanclico.
       - Sim, certamente - assegurou Rachel. - E no h carne nos bolos e nas bolachas.
       Ao ouvir a resposta, Cody se animou.
       - Se Rachel fica triste por cozinh-la, no temos por que comer carne, Clint.
       Jeremiah tinha o aspecto de estar contendo as gargalhadas.
       - No podemos ser cruis com os animais. E acredito que com-los  ser cruel.
       A Clint no pareceu divertido.
       - Posso record-los que estamos dirigindo um rancho de gado? Criamos e vendemos vacas.
       Rachel pareceu abatida.
       - Oh, no tinha pensado nisso. Suponho que matam s vacas depois que as vendem, no  assim?
       -  assim que conseguem fils de carne os habitantes da cidade, Rachel. Compram vacas criadas nos ranchos de gado e as convertem em carne.
       Clint apertou os dentes ao ver a expresso aflita da mulher. E, sem poder conter-se, adicionou:
       - Mas muitas no viram fil de carne. - Procurou inventar outra mentira para faz-la sentir-se melhor com respeito  atividade que desenvolviam para viver.
- As leiterias, por exemplo. Vendemos muitas vacas s leiterias.
       - E outras vendemos para criao! - contribuiu Cole.
       -  certo - admitiu Daniel. - Se no ficassem suficientes vacas e touros para a reproduo, no teramos bezerros a cada primavera.
       Cody esboou um sorriso radiante.
       - E tambm se usam para fazer sapatos e botas! V, Rachel? Nem todas so vendidas para fazer fil de carne.
       Rachel levou uma mo  garganta.
       - Oh, caramba...! Sabem? Nunca parei para pensar que minhas sandlias para ir  pera e os sapatos abotoados so feitos de couro.
       Temendo que tentasse convenc-los de que andassem todos descalos, Clint se apressou a exclamar:
       - Este guisado est muito bom, Rachel. Que especiaria  esta que detecto?
       - Sal - respondeu Jeremiah.
       Clint levantou seu copo de gua para lavar esse sabor.
       - Muito temperado.
8

       Pouco depois, com os pratos do jantar j lavados, Clint mandou os meninos para cama, e conduziu Rachel ao dormitrio do andar abaixo que ficava junto do saguo.
No acendeu nenhum abajur, e s uns pedaos da lua se filtravam pela janela tipo guilhotina; por isso pareceu a ele que havia suficiente penumbra para despir-se
sem envergonh-la.
       Rachel no disse nada quando Clint tirou a camisa. Mas, quando tirou o cinturo de revolver e ia continuar com a cala, lanou um chiado agudo.
       - O que est fazendo?
       Clint se imobilizou.
       - Me despindo.
       - Por que?
       Totalmente inseguro com respeito a como responder, Clint deu um rodeio:
       - Bom... - Lanou um olhar intenso  cama. - Por em geral  isso o que fao antes de me deitar. - E isso porque no tinha a menor inteno de dormir. - E
voc no?
       - Mas onde est seu camiso?
       - Meu o que?
       - Sua camiso. No ser que... - cortou, e tragou saliva. Clint pde ver o movimento convulsivo da garganta, at naquela, semi escurido. - No dormir completamente
nu...
       Clint passou uma mo pelo rosto. No precisava ser um gnio para compreender que estava nervosa como um gato de cauda larga em uma habitao cheia de cadeiras
de balano. Desistiu de despir-se e caminhou lentamente para a mulher, cuidando para no fazer movimentos bruscos. A julgar pela palidez da moa, que conferia um
resplendor estranho  luz da lua, j estava bastante apavorada.
       - No tenho camiso - informou, cauteloso.
       Pareceu escandalizar-se ao saber.
       - No? Bom... at que possa comprar um, poderia dormir com seus... seus no mencionados.
       - Meus o que?
       - Seus... - baixou a voz. - ... seus cales.
       No vero, Clint usava uns cales de algodo at o joelho e, por alguma razo, soube que sua esposa no se referia a isso.
       - Rachel, cu, no te farei mal. - Alisou uma fina mecha de cabelo escuro, afastado da bochecha. - Mas tenho intenes de faz-la sentir-se muito bem.
       O olhar da moa se afastou do homem.
       - Me alegro. Quer dizer... bom, eu sei de... bom, voc j sabe. - Fez um gesto com a mo e se inclinou um pouco para ele, rindo, e murmurou, cmplice: - 
que preferiria no fazer nua.
       Uma onda de ternura inchou o peito de Clint. Percorreu com o polegar o vo da mandbula de Rachel.
       - E ento, como faremos?
       - Com a menor pressa possvel?
               Teve vontade de rir. Mas ao olh-la nos olhos, compreendeu o medo de Rachel e soube que no era nada divertido. Com a menor pressa possvel? Ele tinha
a impresso de que, quanto mais lenta fosse e quanto mais pressa fizesse, seria melhor para ela. Mas, certamente, Rachel no sabia.
       Nervosa, brincou com o boto superior do colete.
       - Tambm insisto que compre um camiso imediatamente, ao voltar do correio.
       Clint imaginou como zombariam seus irmos se o vissem com camiso.
       - Veremos. Por agora...
       Tomou o queixo com a ponta da mo e elevou o rosto para beij-la, confiando em poder excitar nela a paixo, com a condio de que relaxasse. Mas, ao contrrio,
ficou rgida como um pescoo duplamente rgido.
       - Rachel - insistiu, com voz rouca, - no tenha medo.
       - No tenho medo.
       Murmurou a resposta contra os lbios de seu marido.
       Mas, quando ps uma mo na cintura, Clint soube imediatamente que mentia: tinha o corpo rgido. Assim, apertada contra ele, percebia o ritmo agitado da respirao
e at o pulsar do corao. Teve a esperana de a fazer esquecer esses temores de donzela beijando-a.
       Estava a ponto de tentar quando ouviu um golpe na porta da casa. Um instante depois, ouviu-se um gemido angustiante que ressoou por toda a casa. Logo algum
gritou:
       - Vem, Clint, rpido! A Useless acontece algo ruim!
       Quando Rachel e Clint chegaram  cozinha, o co estava em pleno concerto de uivos ensurdecedores. Vendo imediatamente que a pana do animal estava exageradamente
distendida, Clint ficou de joelhos.
       - Oh, merda!  o fermento da massa! O pobre patife comeu muito, e no tinha terminado de levantar.
       Cody sufocou uma exclamao:
       - Vai morrer? - perguntou, com voz trmula.
       - No - tranqilizou-o Clint. - Mas vai sofrer uma terrvel dor de barriga.
       Olhou Rachel, desejando poder voltar com ela ao dormitrio, e terminar o que tinha comeado. Mas um olhar aos aflitos olhos azuis lhe disse que, talvez, no
era bom consumar to logo o matrimnio. Rachel necessitava de tempo para conhec-lo e, como marido, era sua responsabilidade conceder. "Possivelmente deveria lhe
dar um ms, que Deus no o permita!", pensou.
       - Parece-me que vou ter que ficar acordado, cuidando do Useless. Voc me acompanha?
       A moa sorriu, evidentemente aliviada pela trgua.
       - Claro.
       Foi Assim que os dois se prepararam para passar a noite do casamento completamente vestidos, se fazendo de enfermeiros para um co doente. Pouco depois da
meia-noite, finalmente chegou Matt em casa. Clint informou do casamento com Rachel e, depois, Matt se uniu a eles na viglia, acomodando-se no cho, junto ao co.
A princpio, o ambiente era tenso: Rachel se mostrava abertamente hostil, e Matt, carrancudo. Clint compreendeu que os dois precisavam falar dos ressentimentos que
havia entre eles, pois, ao que parece, giravam em torno de Molly, a irm menor de Rachel.

       Quando os incentivou a expressar sua raiva mtua, Rachel comeou, acusando-o:
       - Voc deu falsas esperanas a minha irm, de propsito, e logo a humilhou de uma maneira cruel!
       Matt exclamou:
       - No fiz tal coisa!
       Assim comeou a briga, e Clint foi o rbitro. Quando os dois combatentes conseguiram jogar todos seus motivos de clera, conseguiu gui-los para uma discusso
mais produtiva, durante a qual se chegou  concluso de que Molly no tinha contado toda a verdade a Rachel.
       - Essa tarde, quando se aproximou de mim na calada, preencheu o vestido com algodo - explicou Matt.
       - Com algodo? - repetiu Rachel, perplexa.
       - Sim. - Matt fez um gesto vago, destacando o peito. - Para parecer maior... entende?
       Os olhos de Rachel ficaram redondos de assombro.
       - No me diga!
       Matt assentiu, sombrio.
       - Parte do algodo aparecia, e ela no sabia - detalhou. - por cima do decote. Todos o viram. Alguns dos moos mais jovens comearam a rir. Quando Molly olhou
e viu o que os fazia rir desse modo, comeou a chorar. - Em seu ardor por ser sincero, Matt deixou de acariciar Useless e a olhou de frente. - Eu disse para ir para
casa, Rachel, tal como ela conta, mas no quis ser brusco nem tive inteno de ofend-la. S quis... bom, ela estava to envergonhada que, se no tivesse dito, no
teria tido a presena de nimo de mover-se.
       Muito mortificada, Rachel colocou uma mo sobre os olhos.
       - Ai, Deus! Algodo? Por que ter feito algo to estpido? - Moveu a cabea. - Agora entendo por que chegou em casa chorando. Acho que quis  morrer de humilhao.
Por que no me contou a verdade? Eu a teria entendido. Entretanto, jogou a culpa em voc.
       - Certamente deve ter ficado com vergonha de contar isso - Matt esboou um leve sorriso. - Quando temos essa idade, todos fazemos coisas absurdas, em nome
do amor. Eu, uma vez, at cantei uma serenata a uma moa, sob a janela do dormitrio.
       - Isso no  absurdo,  muito bonito.
       Matt riu.
       - Diz porque no me ouviu cantar! - Lanou um olhar a Clint -  sua vez, irmo. Voc, que coisa ridcula fez?
       Clint riu e respondeu:
       - Me deixe de fora disso.
       Rachel suspirou e mordeu o lbio inferior.
       - Acredito que lhe devo desculpas, Matthew. Lamento que minha irm tenha sido uma chateao to grande para ti. Parece que o pegou pelas calas.
       - Oh, no foi to mau - reps. - Em geral, no me chateou tanto. A no ser quando entrou detrs de mim na casa de banhos. Havia trs homens fumando charutos,
que se inundaram na gua ao v-la, e eu tive que comprar charutos outra vez. Dessa vez, tive vontade de retorcer seu pescoo.
       - Na casa de banhos? Seguiu-o  casa de banhos? Ah, espera que meu pai saiba disso! No poder sentar durante uma semana.
       A expresso de Matt se tornou preocupada.
       - Talvez no devesse contar - sugeriu. - No quero coloc-la em problemas.  uma menina. Os meninos fazem coisas idiotas.
       Essa intuio de Matt de suavizar a situao de Molly ganhou por completo o corao de Rachel. Seus olhos adquiriram um brilho suspeito.
       - Possivelmente tenha razo. Certamente ficar envergonhada ante seus amigos foi suficiente castigo. - Olhou Clint e virou o rosto. - Realmente me sinto mal.
Com tudo o que aconteceu, agora me inteiro de que foi Molly que causou runa a si mesma.
       - Tudo o que termina bem est bem - tranqilizou-a Clint
       - Diz que termina bem? Voc sofreu bastante pelas travessuras de minha irm. Aqui est: casado comigo.
       Clint sorriu:
       - Repito, tudo o que termina bem est bem.

       Pela manh, Useless estava muito melhor, quase recuperado por completo. Como at estava um pouco preocupado, Clint deixou que o co ficasse dentro de casa,
enquanto ele e Jeremiah foram ordenhar as vacas e a juntar ovos.
       Quando os dois irmos mais velhos saram da casa Cole e Daniel j estavam no fundo, recolhendo a lenha cortada para as refeies do dia, e a acomodaram no
alpendre.
       - O que est preparando Rachel para o caf da manh? - perguntou Cole em voz alta, quando Clint passou junto a ele, em caminho para a casa.
       - Bolachas! - respondeu Clint, aos gritos, embora ao mesmo tempo esperasse que a segunda fornada fosse mais comestvel que a primeira. - Como esteve acordada
toda a noite, disse que nos arrumaramos com bolachas quentes e melao.
       Cole fez uma careta, mas conteve sua decepo, pois estava acostumado a comer qualquer coisa que pudesse conseguir.
       Minutos depois, enquanto Clint voltava para casa, Cole gritou:
       - No deveramos ter deixado Useless dentro! Chocou-se com Rachel e a fez derrubar o frasco de melao.
       - Derramou por todos os lados - detalhou Daniel - Em cima de Rachel, no cho, na mesa. Isso sim que  um desastre. Alm disso, Rachel se distraiu limpando
e queimaram as bolachas.
       Clint gemeu. Entrou na cozinha e encontrou Rachel ainda de joelhos. Pelo aspecto de seu rosto, soube que tinha estado chorando. Ajoelhou-se e comeou a ajud-la
e, em poucos minutos, tinham limpado quase todo o melao. Infelizmente as tabuas sem envernizar ficaram pegajosas, e grudavam os sapatos ao cho quando caminhavam
por esse lugar.
       - Bom, este dia teve um comeo maravilhoso - disse Rachel lentamente.
       Depois, de repente, comeou a rir.
       Clint no compreendia o que era divertido, pois, desde que Rachel chegou, nada tinha dado certo. Mas logo compreendeu por que ria: porque eles j tinham comeado
mal. S Rachel era capaz de encontrar humor em semelhante situao.
       Com uma risada no muito convincente, deixou-se cair em um banco.
       - Bom, suponho que, se sairmos disto, poderemos sair de qualquer coisa.
       Com o rosto avermelhado e segurando os lados, sem flego, Rachel assentiu e depois conseguiu chiar:
       - Oh, Clint, o banco! Aqui tambm foi derrubado xarope, e ainda no o limpamos!
       Clint tocou com a mo atrs e amaldioou em voz baixa.
       - Bom, diabos.
       Desta vez, ele comeou explodir em gargalhadas. Riu at que doeu, at que caram lgrimas pelas bochechas. At ficar sem foras.
       - As coisas tm que comear a melhorar - conseguiu dizer por fim. - Porque j no podem piorar.

       Rachel poderia ter dito que, perto dela, as coisas sempre podiam piorar. Para ela, a m sorte era como os milagres para Jesus, e nos dias que se seguiram
pareceu que o destino se empenhava em demonstr-lo. Uma manh, quando ia do galinheiro  casa, no viu uma parte da lenha que um dos rapazes tinha deixado nos degraus.
Tropeou e quebrou todos os ovos que tinha juntado para o caf da manh. Como os ovos eram a nica coisa que podia cozinhar sem conseqncias desastrosas, no era
um problema de pouco valor.
       A forma de cozinhar de Rachel... no era simplesmente m: era espantosa. Como ainda no se atrevia a dizer a ningum quo mau via, no tinha idia do que
Clint devia pensar. Certamente que era a criatura mais estpida da terra. E o entendia. Numa ocasio, leu mal as etiquetas dos barris da despensa e ps sal em lugar
de acar no bolo de ma. Outra vez, ps o triplo da quantidade de soda que indicava uma receita de bolachas. A coisa ficou to mal que, cada vez que algum dava
uma dentada normal a algo que tivesse cozinhado, tinha vontades de esconder. Se no provava as preparaes  medida que as fazia, nunca estava segura de ter lido
bem a receita ou confundido um ingrediente com outro.
       Por desgraa, no s na cozinha cometia enganos. Alm de no poder seguir uma simples receita com preciso sem os culos, Rachel logo descobriu outro engano
tpico dela: era muito distrada. Fosse qual fosse a tarefa a cumprir, na metade se distraa; era quase seguro que esquecia o que estava fazendo, freqentemente
com desastrosas conseqncias. Numa dessas ocasies, ps toda uma banheira cheia de roupa branca a ferver sobre um fogo, no ptio. Enquanto estava a, mexendo a
roupa, com a vista perdida como em uma nuvem, ouviu Cody chorar e abandonou seu posto de vigilncia para ir ver o que acontecia. Estava muito angustiado, e logo
Rachel soube por que. Dia dezesseis de julho, que se aproximava, era o aniversrio de Clint, e Cody no tinha nada para dar de presente.
       Como no podia suportar que o menino chorasse, Rachel se empenhou em anim-lo. Havia enormes quantidades de papel de jornais velhos e suficiente farinha,
e ento sugeriu que fizesse algo com papel mach. Ocorreu que seria ideal uma tigela para guardar as moedas, e Rachel estava enxugando as ltimas lgrimas do Cody
quando ouviu um grito do ptio. Numa piscada, lembrou da lavagem, mas j era muito tarde, para dizer com prontido, queimou. Mas, poderia dizer, incinerou.
       Fracasso... No seria to duro de aceitar se no tivesse sido porque se importava tanto, no s Clint, de quem, suspeitava, estava apaixonando-se, mas tambm
pelo Cody, Matt, e todos os outros. Cada um dos irmos de Clint se tornou especial para ela de algum jeito: Cody, porque necessitava com tal desespero de uma me,
Matt por sua inclinao a beber, e Cole, porque necessitava de ajuda com a pronncia, coisa que Rachel podia ajud-lo fazendo-o pronunciar em voz alta. E a lista
continuava. Pela primeira vez em sua vida, Rachel sentia que necessitavam dela de verdade. Queria com tal intensidade ficar com os Rafferty, sentir que pertencia
 famlia, saber que no era s parte de um acerto circunstancial... Mas, por sua contnua estupidez, estava quase segura de que Clint a jogaria ao vento fresco.
E, se o fizesse, ela o entenderia.
       Para se assegurar de que no o fizesse, Rachel planejou preparar um bolo especial para o aniversrio de Clint, de chocolate, com cobertura grossa que, segundo
Cody, era sua preferida sobre todas as demais. No grande dia, tudo saiu  perfeio. O bolo saiu do forno com um aspecto sensacional. A cobertura era impecvel,
da consistncia exata. Quando todos se reuniram ao redor da mesa para comer, Rachel estava to orgulhosa de si mesma que encheu os olhos de lgrimas.
       Ento Clint deu a primeira dentada ao bolo. E, embora fosse muito corts para dizer, Rachel soube por sua expresso que algo no estava bem.
       - O que acontece? - exclamou.
       Clint fez um gesto sem importncia e tentou sorrir.
       - No  nada - conseguiu dizer. - Srio, Rachel.
       No acreditou nem por um segundo. Ela mesma provou: sal. A coberta era deliciosa, mas o bolo tinha um sabor horrvel. Quase se engasgou. No entendia como
Clint podia estar a sentado, fingindo que no era to espantoso.
       De repente, pareceu muito. Num instante, recordou cada um dos desastres que tinha perpetrado desde que chegou. E agora, para agregar insulto  ofensa, tinha
acabado com o aniversrio de Clint. At Cody a olhava com expresso acusadora.
       - Sinto muito - murmurou sem dirigir-se a ningum em particular. - Sinto muito... muito.
       O golpe final foi quando deu a volta para fugir da casa. Useless estava estendido no cho, detrs dela, e, como as lgrimas dificultavam ainda mais a viso,
confundiu-o com um tapete, tropeou nele e caiu de bruos. Matt foi quem primeiro chegou a seu lado. Foi ele que a ajudou a levantar-se, verificou se tinha raspes
nas mos e sacudiu a roupa. Os outros revoaram ao redor, pronunciando palavras de consolo, mas nenhum disse o que ela precisava ouvir. Rachel no sabia o que podia
ser. O que sabia sim era que se sentia humilhada at a medula dos ossos.
       Ao levantar a vista para Matt, recordou o que ele tinha contado a respeito de ter dito a Molly para ir correndo para casa, mas no por que queria ofend-la,
mas sim porque necessitava que ela se movesse. Por diferente raciocnio, Rachel desejava que lhe desse o mesmo conselho. Qualquer coisa para evitar isto.
       Com movimentos de agonia, retrocedeu para a porta. A cada passo que dava, os rostos se tornavam mais difusos. Salvo o de Clint, certamente. Soube que esse
tinha gravado no corao, que jamais o esqueceria, jamais o veria impreciso, por mais que se afastasse dele.
       Com um soluo que no pde conter, abriu bruscamente a porta e saiu correndo. No podia continuar assim. No era ela a nica que sofria: todos eles sofriam
tambm.

9

       Durante um minuto inteiro depois que Rachel fugiu de casa, ningum falou. Logo, todos quiseram faz-lo ao mesmo tempo. Clint levantou as mos.
       - Eu irei procur-la.
       Cody correu e abraou a perna.
       - Diga que no importa. Podemos fazer outro bolo.
       - Claro que podemos! - concordou Daniel.
       - S tem que praticar um pouco mais na cozinha - insistiu Jeremiah.
       Clint contemplou todos os rostos que o rodeavam e compreendeu que os irmos estavam to perdidamente apaixonados por Rachel como ele, embora de modo doferente.
Remexeu no cabelo de Cody.
       - Trarei-a de volta, garoto. No se preocupe. - Dando um olhar para Jeremiah, adicionou: - Talvez leve um tempo. Enquanto esperam, por que no fazem outro
bolo, o mais rpido possvel? - Lanou a Cody um olhar significativo. - No existe festa de aniversrio sem uma torta.
       Jeremiah assentiu.
       -  obvio, Clint. Mas no espere grande coisa. Meu bolo no deve ser mais saboroso que o de Rachel.
       Clint esteve a ponto de responder que o bolo de qualquer podia ser melhor que o de Rachel, mas se conteve. Compreendeu que, quanto menos dissesse, melhor
seria.
       Encontrou Rachel escondida no mezanino do abrigo. Chorava copiosamente, com soluos profundos e dilaceradores, e s ouvi-la oprimiu o corao. Passou uma
perna sobre o degrau superior da escala, pisou no feno solto e abriu caminho para ela. Onde no havia fardos, a maciez do feno no tinha fim, e Clint vacilava. As
bolinhas de p entraram no nariz.
       Assim que Rachel percebeu a sua presena, conteve o flego para no chorar. Cruzando os tornozelos, Clint sentou ao lado dela, apoiando os cotovelos nos joelhos.
       - Rachel, a nenhum de ns incomoda que no saiba cozinhar, sabe?
       Com voz estrangulada, Rachel soluou:
       - O que quer dizer que no vos incomoda? Para isso me trouxe aqui! Para cozinhar, limpar e manter a casa agradvel.
       - E o tem feito. - Enumerou a lista de coisas que tinha feito: Obter que Cody estivesse limpo todas as noites, para a hora do jantar, pr flores na mesa e
a casa brilhava de to limpa, essas so as coisas que importam. No ser uma grande cozinheira.
       - S voc diz! - exclamou, com voz tremente.
       Clint deu volta as mos e se olhou as palmas. Ouvindo que se esforava por segurar os soluos, curvou os dedos formando punhos apertados.
       - Rachel, no s eu que digo. No tem idia do que era isto para os meninos, antes que voc chegasse. Daniel e Cody tinham pesadelos terrveis quase todas
as noites, relacionadas com a morte de nossos pais e como foi duro aps. Agora quase nunca despertam chorando. - Fez uma pausa para dar tempo a ela que absorvesse
o que acabava de dizer. - Sua presena aqui deu a eles a sensao de segurana, de que tudo na vida est bem. E... - fechou a garganta. - E, alm de todo isso, acredito
que estou me apaixonando por voc.
       Rachel ficou muda e voltou a olh-lo. Clint sustentou o olhar.
       - Assim que souber a verdade, deixar de acreditar - informou, com voz trmula. - No s sou incompetente, como cr. No enxergo.
       - No enxerga o que?
       - Nada! Sou quase cega. Para ver, tenho que usar uns culos de quase um centmetro e meio de grossura.
       - Parece-me que disse que no tinha vista curta.
       Rachel dirigiu um olhar expressivo.
       - E no foi uma mentira. Minha viso no  m:  espantosa.
       Clint a contemplou por um longo momento, recordando todas as vezes que ela o tinha olhado igual  este momento. E ele acreditava que estava fascinada, sem
palavras. Agora compreendia que o olhava com esses olhos to abertos porque se esforava por v-lo.
       - Meu Deus... -  sussurrou. Houve tantos indcios que agora, conhecendo a verdade, surpreendeu-se de ter estado to cego. - Ento por que no usava seus culos,
meu cu?
       - Quebraram. Sempre os tenho escondido no bolso da saia e s ponhos escondidas, quando no tenho mais remdio. Quando ca na igreja, quebraram. Em minha
casa tenho um par de reposio, mas aqui no.
       - Devia ter me dito. Eu poderia ter ido ao povoado e trazido seus culos de volta, meu amor. Custa-me acreditar que tenha estado todo este tempo sem poder
ver. - Suspirou. - Assim que puder, irei a... Deixe-me pensar: no sbado, acredito. Faltam s quatro dias para isso. Levarei voc ao povoado, e procuraremos seus
culos de reposio. Pode esperar at l?
       O queixo de Rachel comeou a tremer e seus belos olhos se encheram de lgrimas.
       - No te importar?
       - O que?
       - Que use... - partiu a voz - ...culos? Que me enfeia tanto? No te incomodar?
       Nesse instante, a verdade golpeou Clint como um murro no estmago. Esta moa que tinha chegado a amar tanto, recebeu uma dolorosa ferida, e tinha a desagradvel
sensao de que a recebeu de um homem. Segurou o queixo.
       - Rachel, no poderia ser feia nem que o tentasse.
       - Sim - gemeu.
       Esse nico monosslabo escondia montanhas de dor. Clint inclinou para enxugar com beijos as lgrimas das bochechas.
       - Nem mesmo com lentes de um centmetro e meio de espessura, nem que fossem de dois centmetros.  a moa mais formosa que eu j vi Rachel, e queria matar
o canalha que disse o contrrio. Quem foi?
       - Ningum. Ningum importante. Partiu da cidade assim que eu disse que no enxergava bem. Quase diria que fugiu de mim.
       Pouco a pouco, Clint entendeu a histria e juntou tudo. Teve a impresso de que Rachel tinha estado perigosamente perto de ser seduzida por um miservel oportunista.
Naquele tempo, tinha quinze, um ano mais que sua irm Molly. O sujeito, vendedor de Bblias que tambm vendia tnico, renegou a promessa de casar-se com ela quando
descobriu que tinha problemas de vista. Para Clint, certamente esse foi um dia de sorte para Rachel. Um tipo assim a teria usado e logo abandonado em qualquer parte
do caminho.
       - No me espanta ter se virado contra Matt com tal nimo de vingana, quando acreditou que tinha ferido deliberadamente Molly. - Atraiu-a a seus braos. -
Tambm estava se vingando por si mesma. - Acariciou as costas. - Ah, Rachel, quantas lgrimas desperdiadas. No chore mais, meu cu. Asseguro que a verei maravilhosa
com as lentes.
       Rachel aspirou.
       - S as usarei quando for indispensvel. Como quando cozinho, e essas coisas. - inclinou-se um pouco para trs. - Quando vejo o que estou fazendo, no sou
to incompetente.
       Clint esboou um sorriso leve.
       - Pode us-las sempre que quiser. Estarei to atarefado pensando em outras coisas quando olh-la que talvez nem o note.
       - Que outras coisas?
       - Me deixe demonstrar isso. - A Clint bastou esse motivo. Inclinou a cabea e posou sua boca na dela. - Oh, sim, Rachel, nenm, me deixe que eu mostre - murmurou
junto a seus lbios.
       Rachel...  medida que o beijo se afundava, o nome foi como uma msica na mente de Clint. Tirou a camisa e a estendeu sobre o feno, para proteg-la das asperezas.
Logo, com tanta doura que custava acreditar, Rachel se entregou. Ao longo de sua vida, Clint tinha ouvido descrever o ato de amor de diversas maneiras, mas era
a primeira vez que o sentia como algo sagrado.
       Assim foi para Rachel: sagrado. Foi como um anjo em seus braos. Um pequeno anjo sedoso e morno que converteu em realidade os sonhos de Clint. Jamais tinha
visto algum to bela. Pele de marfim. Seios plenos, de forma perfeita, com mamilos rosados que tinham sabor de nctar. Cintura esbelta, perfeita para suas mos.
Quadris de curvas suaves. Pernas longas e bem modeladas. Clint percorreu cada milmetro de sua mulher e chegou  concluso de que no tinha deixado de tocar uma
s coisa. Incluindo os olhos...
       Fez amor com cuidado, lentamente, deteve-se no corpo de Rachel para assegurar que estivesse to excitada como ele quando a possusse. Foi a unio mais incrvel
que jamais tinha experimentado e a julgar pelas exclamaes extasiadas do Rachel, ela se sentiu igual.
       Contente... Grande plenitude. Depois a reteve em seus braos e desejou que pudessem ficar onde estavam e fazer o amor uma e outra vez. Mas teve que tirar
as fibras de feno do cabelo e lev-la de volta a casa, para continuar com a festa de aniversrio. Que situao to embaraosa! O nico presente que de verdade queria
era fazer amor outra vez com a sua esposa, mas no poderia faz-lo at que toda a famlia fosse para cama, essa noite.
       Ah, mas ento, que celebrao teria... Clint suspirou e depositou um beijo na tmpora de Rachel, prometendo que essa noite faria amor, que o amanhecer surpreenderia
Rachel gemendo outra vez entre seus braos.

       O sol logo aparecia pelo horizonte quando Rachel abriu os olhos, na manh seguinte. Como de costume, o lado de Clint da cama estava vazio. Rachel acariciou
o lenol e descobriu que ainda estava morno pelo calor do corpo longo e esbelto. Ao mesmo tempo em que a lembrana da posse da noite aparecia em sua memria, o rangido
familiar da palha sob os dedos a fez sorrir. Enquanto fazia amor, Clint amaldioava o rangido das folhas, pelo rudo que fazia, ento sugeriu que comprassem um colcho
de plumas quando possvel. Quando Rachel falou quantas galinhas teriam que morrer para preencher um colcho, Clint riu at que cassem lgrimas. Depois se tranqilizou
e se disps a fazer amor uma vez mais. Doce e maravilhoso amor.
       Por fim, depois de um ms de tenso e de nervosos olhares de soslaio, tinha decidido fazer amor. E se dedicou a isso, levando-a cada vez mais alto, at que
ela se sentiu encharcada de amor.
       Embora admitisse que sua experincia nesse aspecto fosse bastante limitada, estava segura de que nenhuma mulher, por mais lasciva que fosse, tinha se entregado
to sem reservas. E que glorioso foi entregar-se ao homem que amava!
       J era uma autntica mulher. Uma mulher que se apaixonou totalmente, desesperada e completamente de seu marido. O sorriso se suavizou e fechou os olhos. Muito
dentro de si, onde ainda pulsava uma muito doce sensao, sentia-se diferente. Mudada. E formosa.
       Tudo porque Clint a havia tocado onde ningum a tocou antes. E a beijou. E fundiu seu corpo duro, forte com o dela, at quase faz-la explodir de gozo e de
prazer.
       Tinha esperado dor, e recebeu xtase. Estava preparada para a desiluso, e se viu levada s alturas. Temeu sentir pudor de donzela e, em troca, sentiu-se
encantada. O desejo cresceu nela outra vez, como um rio de mel morno e, sentindo-se inquieta, de repente estirou as pernas, Sob a manta desbotada, a pele sentiu
ccegas, ansiosa de sentir outra vez a lenta carcia das mos grandes de seu marido.
       Abrindo languidamente as plpebras, olhou pela janela e viu que um borro rosado e dourado prometia um amanhecer glorioso e um dia mais belo ainda. "Um dia
apto para tarefas ao ar livre", disse-se, contente de pensar j como a esposa de um rancheiro.
       A fim das contas, a esposa de um rancheiro estava to comprometida com o bom funcionamento do estabelecimento como qualquer peo. "Mais, ainda", pensou, recordando
as montanhas de roupa limpa que necessitariam oito homens, para no falar das provises indispensveis para alimentar oito corpos Rafferty, sempre ativos. Nesse
dia, Clint e Jeremiah teriam que estender mais as cercas de arame, e Zach devia terminar de arrumar o telhado do galinheiro. Rachel mesma tinha uma montanha de roupa
para engomar, em seguida depois do caf da manh, e no podia passar desse dia sem encarasse a tarefa de remendar. E teria que fazer o po, enquanto Cody estava
ocupado ajudando Daniel a limpar o estbulo, Rachel tentaria outra vez preparar essa fornada de biscoitinhos que tanto ansiava.
       Uma anulao? Jamais! Com renovada confiana, tirou as mantas. E o que importava no ser a melhor cozinheira da regio e que sempre desse a impresso de que
faltava varrer o cho da cozinha? Ultimamente Clint sorria com mais freqncia que antes, e Cody parecia florescer. A noite de sbado, inclusive, ouviu Josh assobiar
na banheira, e j fazia trs semanas seguidas que Matt no passava o domingo recuperando-se da ressaca. Quanto a Daniel, algum dia esse menino romperia coraes.
       E tudo porque havia uma mulher na casa. "Uma mulher casada", pensou, recolhendo seus cales. Esposa e me.
       Me? Deus querido, agora era possvel! Muito possvel. Contendo o flego, apoiou a mo com gesto reverente sobre o leve inchao do ventre. Ah, seria maravilhoso
saber que j havia um menino crescendo dentro dela! O menino de Clint.
       Encheram-se de lgrimas os olhos ao pensar em dar um filho, possivelmente uma pequena de cabelo negro, com o sorriso inclinado dos Rafferty que ela adorava.
Uma pequena de agradvel aroma, de bochechas rosadas, talvez um monto de meninas de tranas, que orgulhariam ao pai exageradamente. Depois de ter se sacrificado
tanto por seus irmos, de ter quebrado as costas em inumerveis horas de trabalho para aliment-los, vesti-los e cobri-los, merecia receber um pouco de mimo.
       Enquanto se vestia depressa, imaginou essa mesma casa com um alegre papel nas paredes de troncos e as risadas regozijadas dos meninos mesclando-se com as
gargalhadas mais profundas de tios encantados. Na poca de Natal, Clint se vestiria de Papai Noel. E no domingo de Pscoa, ao voltar todos juntos da igreja, Cody
e Daniel esconderiam os ovos coloridos, enquanto ela preparava um caf perfeito e bolachas leves como plumas. E depois veriam como os mais novos procuravam os ovos:
uma famlia Rafferty completa, grande e feliz. Depois, quando todos estivessem deitados, ela e Clint se reuniriam na mesma cama. A cama conjugal.
       Ainda sorrindo, prendeu o cabelo com uma faixa de tafet escocesa, to brilhante como seu estado de nimo, e se encaminhou  cozinha: sua famlia precisava
dela.

10

       - Oh, no!
       Rachel cruzou a cozinha correndo, afastando a fumaa com a mo. Usando o avental, abriu a porta do forno e tirou a bandeja de biscoitinhos. Tinha falhado
outra vez. Em lugar dos deliciosos homenzinhos de po de gengibre dourado que imaginou enquanto misturava e amassava e dava forma  fornada, o que tinha eram vultos
disformes de massa queimada e fedorenta.
       Depois de comear o dia com um estmulo to positivo, Rachel custava a acreditar que tudo tinha se estragado to rapidamente. De maneira que era  esposa de
um rancheiro. Era? Desesperadamente decepcionada, levou os biscoitinhos imprestveis  janela aberta e as jogou no cho. Ao mesmo tempo, viu Clint que se aproximava
do alpendre com largas pernadas impaciente.
       - Maldio, Rachel! Acaso est tentando incendiar a casa - brincou, ao v-la na janela.
       - No tem nada de divertido, Clint Rafferty! - respondeu tambm aos gritos. - Juro que fiz tudo certo desta vez, e os biscoitos vo e se queimam! At pedi
ao Cody que me lesse trs vezes a receita, para me certificar de no cometer enganos. Penso que  esta maldita cozinha,  isso o que penso. A odeio, porque  um
artefato maldito!
       - Vamos querida! - comeou Clint, entrando na cozinha, mas ficou imvel ao v-la girar para ele com os olhos imensos e as finas mechas de cabelo castanho
encaracolado que escaparam da tira e ficaram pendurados sobre o pescoo.
       -  a estufa! - declarou, agitando a mo para afastar a fumaa que se elevava do forno. - Nem Deus poderia fazer uma comida decente nesse... Monstro!
       Com dificuldade, Clint conteve um sorriso.
       - Sim, claro, suponho que  um pouco velha, mas Sam Butts, da loja, jurou-me que estava em perfeitas condies de funcionamento quando me vendeu isso.
       -  velha - insistiu com os olhos um pouco inclinados, como adagas azuis, primeiro para a estufa e logo para Clint. - Esse artefato j era velho quando Matusalm
ainda era um menino.
       - Provou a temperatura polvilhando farinha no fundo do forno?
       - Claro que o fiz! Repito-te:  a estufa.
       - E quando olhou a farinha para ver como estava, viu-a com clareza?
       Rachel fez um gesto vago.
       - Mais ou menos.
       Quando a fumaa se limpou um pouco e Clint pde ver suas bochechas, no pde ficar menos que maravilhado do sbito rubor que as coloria. E de como os peitos
empurravam contra o tecido magro da adorvel blusa azul, a cada inspirao agitada.
       Avanou lentamente, procurando manter-se srio. Mas, que Deus amparasse sua lamentvel pele, como ficava bonita quando estava perturbada! E, pensando bem,
quase to linda como quando no o estava. Poderia ter sido muito pior para Clint. Diabo, ainda no podia acreditar em sua prpria sorte.
       - Bom, se tiver razo, acredito que teremos que acrescentar uma cozinha nova a nossa lista - disse, com o tom mais sincero que pde. - Assim que comprar um
novo par de lentes a minha pequena esposa curta da vista. - Quando Rachel lanou um olhar furioso, conteve-a levantando uma mo. - Tenho dvidas de que o problema
seja sua vista, e no a cozinha. Se no pde ver bem o que aconteceu na prova da farinha,  muito difcil que ponha a temperatura adequada, meu amor. Mas no digo
que esse seja o problema.
       Sua boca suave se esticou, e o queixo se elevou um pouco mais.
       - Mas tive muito cuidado!
       Ao ver a expresso dolorida, Clint encolheu o corao. Para ele, no era mais que um po de gengibre queimado, mas para Rachel sem dvida significava muito
mais.
       - No  sua culpa. Quando formos ao povoado e conseguirmos suas lentes substitutas, coisas como estas no acontecero mais.
       - Prometi a Cody po de gengibre e leite para quando terminasse as tarefas.
       Tremeram os lbios um pouco quando deu a volta. Antes Clint se impacientava, como qualquer homem atarefado, com as manifestaes de emoo, pois no s eram
improdutivas como faziam perder tempo, mas sim sempre as considerou um sinal de debilidade. Entretanto, com Rachel no podia impacientar-se. Ocorreu-lhe que devia
agradecer a Deus no ter tido irms, pois as teria mimado muito.
       - Cody entender - disse, voltando-a outra vez para ela.
       Cortou-lhe o flego quando viu que havia lgrimas que apagavam a intensidade daqueles olhos azuis fora de foco.
       - No, no entender, e compreendo - murmurou, fixando a vista no peito de Clint. - Uma promessa  uma promessa.
       Sem poder resistir, Clint rodeou a cintura dela com os braos e a atraiu para si e, ao faz-lo, recordou como suave e morna era a pele dela sob suas mos.
E a ansiedade com que o recebeu no bero mido, entre suas coxas.
       - Faremos mais - ouviu-se prometer, com uma voz to rouca que soou estranha. - Eu ajudarei.
       Rachel sorriu apenas e negou com a cabea.
       - No h mais farinha - murmurou, apoiando uma mo na cintura. - Pelo menos, nada que esteja em condies de ser usada.
       Prendendo o rosto dela entre as mos, a fez levantar um pouco mais o queixo e esperou que o olhasse, antes de perguntar com ternura:
       - O que aconteceu?
       Rachel moveu a cabea, e Clint teve um desejo to intenso de beij-la que sentiu um n no estmago. Durante toda a manh, tinha estado procurando uma desculpa
para voltar para a casa. E para ela. Nem tanto para beij-la outra vez, embora nesse momento quisesse, mas para certificar-se que no tinha sido sua imaginao a
expresso de felicidade pura que tinha visto em seus olhos no caf da manh. No eram todos os dias que um homem sentia que saltavam os botes da camisa de puro
orgulho masculino, mas, caramba, sentia-se muito bem. S de saber que era o primeiro a ver essa pele da cor da nata  luz do abajur provocou na sua garganta um n
grande como um ovo.
       Maldio! Amava-a. Claro que no estava, absolutamente, disposto a diz-lo em voz alta. Na noite anterior chegou at o ponto de dizer que acreditava estar
apaixonando-se por ela, mas isso estava muito longe de admitir que j o estava. Um homem devia ter em conta as conseqncias antes de revelar-se a si mesmo desse
modo, em especial a uma mulher que tinha estado to relutante de levar seu sobrenome... E to nervosa ante a perspectiva de compartilhar sua cama.
       - Diga-me o que aconteceu com a farinha - insistiu, mais para desfrutar da msica de sua voz que por mera curiosidade.
       - Acreditar que sou uma incapaz sem remdio.
       Com o polegar, Clint tirou uma mancha de farinha do queixo e o sentiu tremer. A pele de Rachel era flexvel e morna, e sua carne, leitosa, suave como uma
ptala. Sob a simples saia azul que no deixava ver outra coisa que as pontas dos sapatos, as coxas eram esbeltas embora de deliciosa plenitude, as panturrilhas
bem formadas, os tornozelos, magros. Essa noite, quando tivessem baixado a chama do abajur e a porta estivesse fechada, lamberia cada centmetro de sua mulher com
a lngua, e ela emitiria outra vez esses rudos que lhe saam do fundo da garganta.
       O corpo ps tenso contra a braguilha dos jeans.
       - Acredito que  adorvel.
       - No, no o sou. Sou torpe e de vista curta e no posso nem fazer uma costura direito.
       - No necessita mais que seus culos e um pouco de prtica, isso  tudo.
       Rachel sentiu como um bater as asas nas cercanias do corao. Embora doesse admitir, inclusive para si mesma, desejava a aprovao de Clint. Quase tanto como
desejava seu amor. Mas se esforou para ser sincera. Apesar de o matrimnio ter acontecido como resultado de uma mutreta, ou talvez precisamente por isso, tinha
desejos desesperados para que a vida em comum se apoiasse na confiana mtua. Mesmo assim, precisou aspirar trs profundas baforadas de ar at poder resmungar:
       - Tropecei com o trem que esculpiu para o Cody e, ... derrubei o pote de farinha.
       - Quebrou-se?
       Assentiu e adicionou:
       - Levou-me uma hora varrer a farinha das fendas do cho. E enquanto estava ocupada nisso, Useless roubou o frango que Daniel trouxe para o jantar de hoje.
       - Permitiu que Daniel matasse um frango?
       - OH, no. O pobre morreu de velho. Por isso foi to horrvel que Useless o roubasse. Quero dizer que no  muito freqente um frango morrer de velho como
este.
       - Possivelmente mais freqente do que voc supe. Toda a primavera compramos lotes inteiros de frangos de uma s vez, assim quando crescem e comeam a morrer
e morrer um em cima de outro. No me surpreenderia que houvesse outro lanando o ltimo flego neste mesmo instante. Talvez ainda possamos jantar com frango.
       - Se eu no deixar que Useless o roube!
       - Que o cu nos ampare - disse Clint arrastando as palavras, com um sbito chiado nos olhos, sob o marco das negras pestanas.
       - Trata-se disso, Clint. Comeo a pensar que nem o anjo Gabriel e seus arcanjos poderiam me converter na classe de esposa que merece.
       A boca firme do homem se curvou em comissuras e terminou em um sorriso inclinado, de moo. Mas a expresso de seu olho tinha bastado para acender o sangue
do Rachel.
       - No que me diz respeito, Rachel, pode queimar bolachas desde agora at o dia do Julgamento Final, e no me ouvir uma palavra de queixa - assegurou, com
voz grave que Rachel tinha aprendido a adorar. - Pelo menos enquanto continue apoiando esse pequeno e formoso traseiro contra o meu todas as noites.
       Roou-lhe o flanco do peito com uma mo. Os dedos eram duros, mas a carcia, suave, quando cavou a mo sobre ele.
       - Quanto  maldita farinha, no  sua culpa que Cody deixasse o trem fora de lugar.
       Embora houvesse duas capas de tecido interpostos entre a mo e sua pele Rachel sentiu que queimava onde tocava, e a nica coisa que pde fazer foi murmurar
sons inarticulados.
       - E no que se refere ao frango, acredito que poderia matar Useless - sugeriu.
       Sem poder conter-se, Rachel se arqueou para ele e, ao mesmo tempo rodeou o forte pescoo bronzeado com os braos.
       - S me beije - sussurrou, aproximando-o dela.
       O gemido de Clint vibrou contra os lbios entre abertos um segundo antes que sua boca se fechasse sobre a dela. Os lbios do homem eram quentes; o flego,
mido; a lngua, exigente e arrogante.
       Rachel sentiu que o corao acelerava, e um zumbido surdo rugiu nos ouvidos, ofegante, desesperado; arqueou-se contra ele, e seu corpo respondeu ao de seu
marido como se tivesse vontade prpria. O sussurro spero de sua respirao a encantou.
       Quando as mos soltaram a cintura da saia, Rachel afogou uma exclamao. Quando as pontas de seus dedos procuraram outra vez o seio, gemeu. Entre beijos intensos,
ansiosos, ela desabotoou a camisa de cambraia que essa manh tinha tomado diretamente da cesta de engomados.
       No instante em que a saia ficou aberta, ouviu um rudo. Uma voz que chamava Clint. A voz de uma mulher. Clint se soltou, e suas mos, instintivamente, atraram-na
contra o amparo de seu prprio peito largo, no mesmo momento que se voltava para onde vinha a voz.
       Com o corao golpeando e os pulmes ofegantes de ar, Clint tratou de limpar a cabea. Conhecia essa voz...
       - Clinton,  voc?
       - Tia Hester? - disse atnito, um segundo antes que a silhueta redonda de sua tia enchesse o vo da porta.
       Como um rolio pssaro negro abrindo as asas, a tia vestida de negro dos ps a cabea, abriu os braos para os lados.
       - Recebi sua carta, e aqui estou, vim atender a casa e ajudar a criar esses queridos meus sobrinhos!

11

       Rachel brincou, abatida, com o garfo com os nabos que ficaram no prato, incapaz de passar outro bocado pelo amargo n que tinha na garganta. A sua direita,
Cody trabalhava em excesso engolindo os ltimos fios da segunda pata de frango. A sua esquerda, Matt atacava a terceira parte de bolo de limo. Rachel no pde deixar
de admitir que, antes da chegada da tia Hester, dois dias antes, nunca tinha visto os moos comerem com tanto entusiasmo, nem elogiar to francamente a comida. At
Clint tinha ido  mesa com um brilho ansioso no olhar.
       Claro que nunca disseram diretamente, preferirem os pratos da tia Hester s patticas preparaes que Rachel punha sobre a mesa, mas eram to evidentes os
indcios de sua flamejante satisfao que inclusive ela, ceguinha como era sem os culos, podia v-los.
       "Esta manh, por exemplo," pensou, cravando com o garfo outra fatia de nabo perfeitamente cozida. "Ele at se referiu poeticamente as maravilhosas bolachas
de manteiga da tia." Os irmos estavam muito atarefados assaltando uma gelia de morangos que trouxe a tia Hester de Ohio, para fazer comentrios. A montanha de
bolachas tinha desaparecido hoje trs vezes do cesto... a diferena das dela, que em geral duravam trs dias.
       - H mais bolo, meninos - cantarolou a tia Hester, que estava sentada  direita de Clint.
       - Eu comerei outro pedao - disse Cole, ansioso, apresentando o prato.
       - Eu tambm, tia Hester - gritou Cody. - Nunca provei nada to rico.
       O rosto da tia Hester resplandeceu, enquanto deslizava grossas pores em cada um dos pratos.
       - Clint? Quer o ltimo pedao, tem seu nome escrito.
       - No obrigado, tia Hester. - Clint deixou o garfo e se recostou - Mas como diz Cody,  o melhor bolo que provei.
       - Bom, obrigado, sobrinho. E esse  o melhor elogio que um cavalheiro pode fazer a uma dama.
       Depois, Matt se inclinou para a orelha de Rachel e murmurou:
       - Recorde-me de usar essa frase com Doura Faye, na prxima vez que v ao Golden Goose.
       Rachel deu um bom chute, que s serviu para que o sorriso malicioso se alargasse.
       - Cuidado irm - sussurrou, lanando uma piscada. - Que esse  o p que uso para apoiar na barra, os sbados de noite.
       Ver que seu irmo cochichava com Rachel como um potro farejando uma gua em geral deixava Clint de muito mau humor, mas com a pana cheia da deliciosa comida
da tia, estava muito apaziguado para fazer outra coisa que olhar carrancudo ao irmo, em sinal de advertncia.
       Por alguma razo que no conseguia adivinhar, Rachel estava diferente desde a sbita chegada da tia Hester. Embora no gostasse muito de analisar as emoes,
nem as prprias nem as de nenhuma outra pessoa, podia ver que estava muito calada, como a chama de uma lmpada sem tela que de repente se extingue com uma rajada
de vento inesperada.
       Esfregando o ventre com a mo, recordou da repreenso que tinha dado  tia Hester a primeira noite que esteve a.
       - Caramba, a pobre garota est completamente esgotada - censurou-o - Tratar de atender uma casa cheia de vares rudes e enfrentar-se com todas suas armadilhas
 mais do que deveria ter que fazer uma esposa recente.
       "Possivelmente a tia Hester tenha razo", pensou Clint contemplando a cabea encurvada de sua esposa, do outro lado da mesa. Diferente de outras noites em
que teve que atarefar-se sobre as panelas fumegantes, tinha o cabelo castanho brilhante recolhido ajeitadamente na nuca com uma tira negra e sua blusa branca rangia
de amido. "Que me crucifiquem se no parecer uma colegial inocente", pensou, olhando dissimuladamente a protuberncia dos seios sob o recatado traje.
       Ao recordar tudo o que ele mesmo e os irmos tinham exigido nessasltimas semanas, a culpa o torturava. Diabos, a tinha levado a um lugar que parecia um
chiqueiro, e no teve pena em pedir que o convertesse em uma casa. E sem muita ajuda, para falar a verdade. Pelo menos, por parte dele isso mudaria. Agora que a
tia Hester levava adiante o manejo da casa, Rachel teria mais tempo para o cio. Em um ou dois dias, estaria terminada a tarefa de marcar o gado, e Clint poderia
tirar uns dias de descanso. Se conseguisse bom preo pelos animais, podia levar Rachel uns dias a So Francisco. Tinham comentado que havia alguns hotis elegantes,
com camas macias para a pele delicada de sua esposa.
       Ante a mera idia de que eles dois pudessem ir passear, sozinhos, esquentou o seu sangue. Sem dvida, a chegada da tia Hester tinha impedido as noites de
amor. Nesse inverno, Clint construiria outro dormitrio para que ele e Rachel pudessem gozar de certa intimidade, mas por agora s podia se preocupar com o rudo
que podiam fazer. Os meninos se mudaram todos para o mesmo quarto de dormir, e deixaram o outro para a tia Hester. Mas, para gosto de Clint, no estava bastante
afastada. Essas malditas fibras de palha! Rangiam cada vez que moviam um dedo do p.
       Por isso Clint estava to ansioso para ficar em So Francisco uns dias, como um sedento deseja beber. Por Deus, que espetculo seria Rachel com o cabelo esparso
sobre um desses travesseiros de hotel com capas de encaixe!
       - A tia Hester me prometeu fazer bolachas depois que estejam limpas todas as vasilhas - exclamou Cody, entre um bocado e outro, fazendo Clint voltar de seus
devaneios mentais para o presente. - No  certo, tia?
       - Acredito recordar que sim. - admitiu Hester com um gesto de afirmao de sua cabea grisalha.
       - Eu a ajudarei - ofereceu-se Rachel, levantando-se para afastar o prato mdio cheio.
       - No! - exclamaram a coro Cody e Daniel, e logo trocaram olhares aflitos.
       - ... O que acontece  que parece um pouco cansada esta noite - apressou a adicionar Daniel. - No  certo, Clint?
       Ainda com o prato na mo, Rachel dirigiu os olhos entre abertos para o homem que, sabia, era seu marido.
       - Na realidade, eu estava pensando que esta noite estava muito arrumada - disse Clint, mastigando as palavras.
       Arrumada? Rachel olhou a singela saia negra, mais apropriada para uma matrona de idade avanada que para uma jovem casada. Usava-a porque o cinto largo reduzia
sua cintura a um feixe de juncos atados que conforme sabia, os homens achavam irresistvel. E, entretanto, Clint a achava arrumada. Por Deus, por isso poderia ficar
de p na igreja e declar-la um miservel fracasso como esposa e como amante.
       O n na garganta adquiriu bordas afiadas. Quando por fim comeava a sentir-se como em sua casa, a famlia que tinha chegado a amar demonstrava o pouco que
a considerava.
       - Suponho que tenho que me ocupar dos remendos...
       - Agradeo pelo oferecimento, mas no  necessrio - interrompeu-a Hester, com seu forte acento do oeste. - Como tive uns minutos livres, pude termin-lo
antes do jantar.
       Rachel piscou, evocando a imagem do sobrecarregado cesto de costura. Sempre parecia uma montanha impossvel de escalar.
       - Tudo? As meias trs-quartos tambm?
       Embora no pudesse ver o rosto de tia Hester, ouviu sua risonha resposta:
       - Bom, menina, no  grande coisa quando se sabe como faz-lo.
       "Coisa que eu no sei", pensou Rachel, afastando-se da mesa.

       No dia seguinte, minutos antes do meio-dia. Clint voltou do campo com a esperana de levar Rachel a um longo passeio e uma comida campestre. Para a sobremesa,
pensava em fazer amor selvagem e ruidosamente. Ao entrar na cozinha, sacudiu o p do chapu e o jogou sobre a mesa. A tia Hester estava fora, fervendo a roupa branca,
e na casa havia uma estranha quietude. Muita quietude, pensando bem.
       - Rachel? Onde est, moa?
       Como no obteve resposta, impacientou-se e entrou no dormitrio principal, golpeando estrepitosamente com os saltos das botas sobre as pranchas recm enceradas.
       - Rachel?
       A porta estava aberta. Dentro, a cama de pinheiro nodoso resplandecia sob uma capa nova de verniz, os tapetes rsticos pareciam novos e as janelas jogavam
fascas. Uma vez mais, a tia Hester tinha feito sua mgica, e Clint se permitiu um de seus estranhos momentos de satisfao consigo mesmo. Pelo inconveniente nmero
de pessoas e pela m distribuio dos lugares de dormir, sem dvida escrever  tia Hester foi um arranque de gnio. Por fim conseguia que a casa funcionasse bem,
e assim poderia prosperar. Quando pudesse construir um dormitrio principal acrescentado a casa, tudo seria perfeito.
       Enquanto entrava mais dentro do dormitrio imaculado, pensou que parecia muito vazio. At a penteadeira onde Rachel tinha seus objetos femininos pareceu to
nua que se inquietou. Sentiu uma sensao de alarme que retorceu as tripas fortemente. Com o corao agitado, foi at o armrio e abriu a porta. O lado de Rachel
estava vazio. No se via uma s blusa coquete, nenhuma manga de pele de camelo, nenhuma saia larga. At a confuso de sapatos pequenos que havia no fundo tinha desaparecido.
       - Merda!
       Deixando a porta do roupeiro aberta, voltou-se para a penteadeira e abriu as gavetas a puxes, um por um. Todos vazios, exceto o ltimo onde estavam suas
prprias cuecas largas e suas meias trs-quartos. Maldita mulher! Teria que dar muitas explicaes por isso!
       Segundos depois, Clint percorria a pernadas furiosas o ptio para onde estava sua tia.
       - Viu a minha esposa? - perguntou, de p com as pernas separadas e os punhos nos quadris.
       A tia terminou de pendurar uma das camisas de Cody na corda antes de olhar para seu sobrinho.
       - A ltima vez que a vi cavalgava saindo daqui, sobre uma gua castanha, com todos os seus pertences amarradas  garupa - declarou a comissura da boca apontando
para baixo, pelo peso do mau humor. - Cavalgando a cavalo e mostrando boa parte das anguas, at os joelhos, e exibindo os cales para qualquer um que quisesse
observ-los, deveria acrescentar.
       Clint lanou uma olhada rpida ao rastro marcado que ia para o povoado. Se Rachel tinha levantado p, j fazia muito que se ausentou, e a nica coisa a mover-se
entre o lugar em que estava Clint e o horizonte longnquo eram os pinheiros que se balanavam.
       - Por qu? - murmurou, esquecendo por um instante que no estava sozinho.
       - Eu no sei por que. Embora tivesse perguntado. Mas a nica coisa que consegui foi uma resposta tola.
       - Qual?
       - Que ela tinha completado sua parte do trato, mas agora que eu j estava aqui, j no era necessrio que continuasse cumprindo. - Hester olhou aflita para
seu sobrinho - Sobrinho, eu cometi um engano. Prefiro ir que causar problemas entre voc e sua mulher. Acredito que, em minha ansiedade para me fazer necessria
talvez tenha comeado com um impulso exagerado. Talvez ela tenha sentido que de certo modo eu a menosprezava.
       - Isso  absurdo - protestou Clint. E realmente acreditava. - Foi bondosa e doce para com ela desde que veio, tia Hester. Se Rachel se sentiu menosprezada,
 porque queria sentir-se assim.
       A tia no se tranqilizou.
       - s vezes, as mulheres vem as coisas de um modo muito diferente dos homens. - Suspirou e alisou as rugas de uma camisa - Na passagem me pediu que dissesse
para que recolhesse a gua no estbulo, e no na sua casa.
       Isso s acrescentou mais combustvel  ira de Clint, que crescia cada vez mais. Ento Rachel no queria v-lo, ? Nem nos poucos minutos que levaria a recolher
o animal? Muito bem, faria o mesmo.
       Passou a mo pelos cabelos, sentindo que fervia por dentro e que retorciam suas vsceras. Maldio, nenhuma mulher valia a pena tanta clera, sobretudo quando
ele tinha sido to paciente quanto pode ser um homem.
       - Espero que v procur-la - disse tia Hester.
       "Maldio se irei procur-la", pensou Clint, chiando os dentes com tanta fora que algo rangeu em sua mandbula. "Rachel  minha esposa, no  certo? Pertence-me.
Seu lugar  em minha cama...".
       Merda! Talvez no fizesse amor to maravilhosamente como acreditava. Possivelmente na primeira vez no teve suficiente pacincia com ela. Ou suficiente habilidade.
Tendo em conta sua limitada experincia com as mulheres, fazia o melhor possvel para que tudo fosse bom para ela. Mas possivelmente no tinha sido suficiente. Sobretudo
depois dessas ltimas noites, quando sabiam que a tia Hester escutava tudo.
       Clint fixou a vista ao longe, sentindo um ardor to intenso na garganta de pranto contido que se sentiu da mesma idade de Cody. Seria essa a razo pela que
Rachel fugiu dele na primeira oportunidade? Por que a tinha decepcionado? A vergonha o queimou por dentro, cada vez mais fundo, at que se dobrou sobre si mesmo.
Se um homem no podia satisfazer sua mulher na cama, no merecia conserv-la.
       - No, no irei procur-la - respondeu por fim.
       - Mas, sobrinho, se for evidente que...
       - Nada de mas, tia Hester. No irei atrs dela. Tenho mais coisas a fazer.
       Erguendo os ombros, deu a volta e se encaminhou para o local onde guardavam objetos para no ficarem expostos ao sol e a chuva. Maldio: ele era um Rafferty.
E os Rafferty tinham seu orgulho. No suplicavam a nenhuma mulher que ficasse, se o que ela queria na realidade era ir-se.
       Mas, maldio, como doa!

       Clint empurrou as portas de madeira e entrou no Golden Goose. A reunio mensal de boiadeiros tinha durado mais do que o habitual, e ao recordar como tinha
conhecido Rachel depois da anterior, fazia pouco mais de dois meses, esteve to tenso todo o tempo, que ardia a garganta de sede. Piscando os olhos pela fumaa e
pela neblina que projetava o abajur de azeite, lanou um olhar para a bancada, esperando quase divisar Matt ou um de seus outros irmos levantando o cotovelo. Mas
desta vez s viu Doura Faye. E a julgar pelo rosto carrancudo da moa, no pensava dar as boas vindas.
       - Tem coragem para vir aqui, esta noite, Clint Rafferty - disse-lhe quando se aproximou.
       - Por que diz isso? - perguntou, antes de indicar ao taberneiro que trouxesse uma garrafa. - Usque de centeio - detalhou. - O que reserva para banqueiros
e polticos. - Jogou um olhar fugaz a Doura. - E dois copos.
       - Um - corrigiu a moa, imediatamente. - Eu sou muito suscetvel com respeito a quem acompanho a beber.
       Clint atirou para trs o chapu.
       - Isso significa que no tem interesse em beber comigo?
       Doura ficou de costas  bancada e apoiou os cotovelos sobre a superfcie brilhante. Em outra ocasio, Clint teria desfrutado da extenso da carne branca feminina
exposta dentro do barato vestido verde. Mas essa noite, tinha uma e s uma idia em mente: tomar suficiente usque para tampar a sensao de vazio que tinha nas
vsceras. Agora compreendia como deve ter se sentido seu pai depois de perder a sua me: oco at a medula dos ossos. J no importava se vivia ou morria. Fazia um
ms que Rachel tinha partido, e cada segundo tinha sido uma agonia para ele.
       - Como gosta - disse Doura Faye, enquanto inclinava a garrafa sobre o copo.
       Em um segundo, bebeu o usque. Cinco copos mais tarde, parte do seu mau humor tinha se diludo, mas no todo.
       - Para algum que no desfruta de minha companhia, est colada s dobras de minha camisa - disse em tom azedo  pomba manchada.
       - S para poder dizer o que penso: que  um imbecil. Destroou o corao de Rachel, miservel.
       Clint apertou os dentes.
       - Maldito seja se o fiz - replicou.
       Nesta vez, quando se serviu, sua mo j no era to firme como tinha que ser. E quando bebeu o gole triplo, de repente o usque ficou amargo. Ou o que saboreava
era sua prpria solido?
       - Emagreceu desde que voltou para casa de seu pai. Big Jim est desesperado.
       Clint tamborilou a garrafa com um dedo.
       - Tem certeza que no quer um gole? - ofereceu, tratando de no fazer caso do que a garota dizia. - Sobra muito.
       A seu julgamento, meia garrafa. Muito para desperdi-lo.
       - A ltima vez que a vi, na loja, tinha os olhos vermelhos de tanto chorar.
       Clint se serviu mais rpido, derrubando o equivalente de uma medida sobre o mostrador da bancada. Encolheu os ombros, limpou o lquido com o antebrao e bebeu
o que tinha ido parar no copo. Em vo. Continuava vendo o rosto de Rachel sobre o travesseiro, seu espesso cabelo castanho esparramado como a boina de um anjo, sobre
a capa um pouco chamuscada.
       - Ningum disse por que se foi - murmurou, com acento de bbado.
       - Talvez no com palavras - exclamou Doura Faye, em um sussurro. - Mas a uma mulher sensvel como Rachel pode ler as entrelinhas.
       - De que demnio est falando? - quis saber Clint, sentindo que a cabea comeava a dar voltas.
       - Pedao de estpido! Estou falando dessa tia prepotente que levou a sua casa.
       Clint jogou a cabea para trs e olhou com os olhos entreabertos a ruiva que o acusava. Demorou bastante tempo para enfocar o rosto da moa e viu que gostava
mais quando no podia ver como seus olhos verdes lanavam raios. Assim se sentiria Rachel sem os culos? Como se todo mundo estivesse do outro lado de um cristal
embaciado?
       - Prepotente, a tia... H-Hester? - O maldito usque tinha entorpecido a lngua, em lugar da cabea. - Isso foi o que Ra-Rachel te disse.
       - No me disse isso com todas as letras, mas asseguro que estava ferida. - Cravou um dedo no peito - Rachel entregou tudo o que tinha a tua ingrata famlia,
e o que recebeu em troca? Nem um "obrigado" ou "no deixe que a porta se feche de um golpe onde o Senhor te deixe".
       - Onde o Senhor o que? Espera um minuto...
       Agora apontou com um dedo o nariz.
       - Ento no sabe cozinhar to bem como uma mulher que esteve fazendo isso durante mais de trinta anos? Fez o melhor que pde, no  assim? E pode ser que
tenha queimado um par de cales, mas isso no significa que voc e os moos no tivessem roupa limpa quando a necessitavam, alm de um sorriso e uma palavra alegre
quando chegavam em casa cansados e famintos.
       - Eu nunca disse...
       - Esse  o problema, precisamente, vaqueiro tolo. Nunca disse nada do que ela precisava ouvir, por exemplo, que valorava seus esforos. Ou o agradvel que
era encontr-la na casa quando voltava ou como estava bonita, ou como era doce abra-la nas noites. - Fez uma pausa para recuperar o flego. - Mas lavou as mos
com respeito a ela no instante em que no necessitou mais dela. At no dormitrio, depois da porta fechada, pedao de sapo imprestvel.
       Clint recordou todas as noites, desde que tinha chegado  tia, em que se havia sentido incmodo para fazer amor com sua esposa como devia e sentiu esquentar
as bochechas.
       - O que ocorre entre um homem e sua esposa a portas fechadas, no  seu assunto - balbuciou olhando fixamente o lquido ambarino no fundo do copo.
       - Pelo que ouvi, lastimosamente pouco para guardar o segredo! O ranger da palha de milho, pedao de mula.
       Clint a olhou, boquiaberto.
       -  por isso que se foi? Porque me preocupava fazer rudo e no fui muito... Bom, j sabe?
       - Entre outras coisas. Como voc nunca dizer que a amava. No o negue. Se tivesse dito, ela jamais teria ido, nem em um milho de anos.
       Isso crispou Clint.
       - Eu o fiz! Bem claro! Disse vrias vezes.
       - Segundo Rachel, no. Diz que disse que acreditava estar apaixonado.
       Clint no pde responder. Pensando de novo, recordou ter evitado dizer, que havia dito que acreditava que a amava, mas nunca disse com segurana.
       - Mesmo que fosse assim, no tinha por que ir-se - disse baixinho.
       Doura Faye, com o nariz colado ao dele, replicou-lhe, carrancuda:
       - Ah, no? E o que a teria convencido de ficar, mula obstinada? Casou-te com ela por suas habilidades de dona-de-casa. A meu entender nunca andou com rodeios
a respeito, desde o comeo, e Rachel sentiu que falhou completamente. - Quando Clint tratou de protestar, fez um gesto para que se calasse. - Isso ela disse, no
eu. Desde que apareceu a boa da tia Hester, Rachel sentiu que no necessitavam mais dela. Mais ainda: que tinha feito um trabalho to desastroso que voc estava
esperando que partisse.
       - Isso no  certo.
       Na tmpora de Doura palpitou uma veia.
       - Acredita que voc tinha preferido no ter casado jamais com ela.
       - Isso  uma estupidez.
       - Ah sim? Eu no acredito. E depois do que tenha passado voc to bem a compreender. - Cravou-lhe seus ferozes olhos verdes durante uns instantes - Na segunda
feira, sabia, vai embora para viver no leste onde tem parentes, e onde achar alguma escola? Por que no teria que ir? Agora que voc s v desfeito dela, no tem
esperanas de refazer sua vida aqui, em Shady Corners.



       A igreja parecia muito cheia para tratar-se dos primeiros servios. Rachel estava junto  porta, do lado de fora, com seu pai e sua irm, e as pessoas que
lutavam para entrar em massa os deixavam para trs. Molly ficava nas pontas dos ps, estirando o pescoo para ver:
       - Pergunto-me o que estar acontecendo - disse, por ensima vez.
       - No tenho idia - respondeu Rachel.
       - Bom, irei averiguar! - afirmou o pai.
       Comeou a abrir espao pela multido, dando espao a Rachel e a Molly  medida que avanava. Foram atrs dele como granjeiros depois do arado. Ao transpor
a porta, Rachel viu que o interior estava muito silencioso. Em geral, quando o pblico entrava, conversavam uns com outros at que o ministro subia ao plpito. Esforou-se
para ver por cima dos ombros dos homens, perguntando-se por que se amontoavam as pessoas na parte de atrs.
       Quando por fim seu pai conseguiu atravessar a multido, Rachel se convenceu a descobrir o que era que os retinha, por que no foram a seus assentos. Mas,
a primeira vista, no notou nada fora do comum.
       - Caramba, aqui est ela. Medi mal seu tempo, querida. J estvamos perdendo a esperana.
       O corao do Rachel deu uma volta. Teria reconhecido a voz de Clint em qualquer parte. Guiando-se pelo som, por fim distinguiu a silhueta imprecisa. Estava
sentado no cho e quase no mesmo lugar onde os tinham descoberto naquela condenada manh, mais de dois meses atrs.
       Apoiava as costas na parte de trs de um dos bancos com um joelho levantado, onde descansava o brao. Junto dele, estava uma garrafa de usque.
       - Rapazes, eu quero apresentar a minha esposa!
       Pensando s em sair dali, Rachel deu a volta. Mas a multido tinha fechado o caminho atrs dela, e no havia espao para sair.
       - No pode fugir de mim, Rachel. Se escapar, juro que a perseguirei.
       Quando deu a volta, Rachel descobriu que Clint estava de p.
       - Por que est fazendo isto? - perguntou, com voz triste.
       - Pelo que ouvi, est pensando em ir do povoado, e queria esclarecer algumas coisas, antes que parta.
       - Que coisas? - perguntou, sem expresso.
       - Por exemplo, que a amo. - Avanou um passo para ela. - E que acredito que  formosa, doce e absolutamente maravilhosa. E isso para no mencionar que no
posso viver sem voc.
       Rachel sentiu que se ruborizava e baixou a vista ao cho.
       - OH, Clint, no faa isso.
       - Como "OH, Clint, no faa isso"? Acaso pensa que quero perd-la? Maldio, Rachel, no tinha o direito de fugir sem falar comigo. Cr que me importo muito
que a tia Hester faa ricos bolos? Diabos, no. Claro, eu gosto de seus bolos tanto como a qualquer outro, mas posso viver sem eles, e meus irmos tambm. O que
no podemos  ficar sem o corao da famlia. O amor e as risadas. Ter algum que deixa secar as lgrimas se ns a necessitarmos. Algum que conte contos. Diabos,
at o Useless sente tua falta.
       Rachel fechou com fora os olhos.
       - Voc no necessita de mim. Nenhum de vocs necessita de mim!
       - Matt est bebendo outra vez! - falou. - E na outra noite, me uni a ele. Tambm Cody tem pesadelos outra vez. Alm de tudo, defumamos outra vez carne de
vaca e de veado, e devo dizer que nenhum desses animais morreu de velho. E tornamos a cortar as cabeas dos frangos, a torto e a direito. Tem que voltar, Rachel.
Isso  tudo. Embora s seja para salvar aos pobres animais.
       - Ter que salv-los voc mesmo.
       - Nosso rancho se ir ao demnio sem voc.
       - Se a tia Hester estiver ali, no! Estou segura de que tem tudo sob controle.  um exemplo.
       - Ela veio para ajudar nas tarefas, e nada mais.  para aliviar a vida e para que tenha mais tempo para recrear com a famlia. Quando comearem a chegar nossos
meninos, sua ajuda ser mais necessria ainda. Mas o fundamental  que ela  um prato complementar, Rachel, nossa comida principal. Necessitamos de voc, meu amor.
- interrompeu engoliu com dificuldade. - Eu necessito de voc.
       Rachel se sobressaltou quando as botas apareceram ante sua vista. Um instante depois, a mo grande e morna dele a segurou pelo queixo e a obrigou a olh-lo.
Rachel descobriu que estava to perto dele. Podia ver as negras pestanas que adornavam seus olhos, esses olhos cinza azulado, o tom bronzeado da pele. Seu corao
golpeou com fora contra as costelas. Pareceu-lhe quase comestvel de to bonito. Sem dvida.
       - Tem que vir para casa - disse, com voz rouca. - J no h flores sobre a mesa, e eu a amo tanto que no posso viver sem voc.
       Sem advertncia, inclinou-se e comeou a procurar no bolso da saia dela. Como no encontrou nada, comeou a procurar no outro bolso, e em seus olhos apareceu
um brilho de satisfao. O que Rachel viu foi que ele estava colocando os culos dela sobre o nariz. Flexionando um pouco os joelhos fez uma grande exibio do modo
como a olhava. E logo disparou um de seus sorrisos devastadores.
       - Saiba: est adorvel com os culos.
       Olhou ao redor, como procurando eco a seu comentrio.
       Algum que estava perto disse:
       - No sabia que usava culos, Rachel.
       Clint replicou.
       -  claro que os usa, mas no o faz em pblico, porque tem a estpida idia de que no ficam bem. Eu no estou de acordo. Estou convencido de que  formosa
com elas.
       Rachel gritou:
       - Basta, Clint. Est me envergonhando!
       - Ento, vem para casa comigo - exigiu, com voz resmungona, - assim poderei dizer a ss o quo formosa que me parece.
       Os olhos do Rachel se encheram de lgrimas e embao as lentes. Clint segurou a sua mo.
       - Por favor, Rachel. Volta para o lar que pertence. Cada hora que passo separado de ti, morro um pouco mais por dentro. Por favor...
       Como ela no respondeu imediatamente, apressou a acrescentar:
       - Lamento que tenha se sentido separada desde que chegou a tia Hester. Quando recordo, imagino como deve ter se sentido, pensando que eu, de repente, deixei-a
de lado, pondo como desculpa o rangido da palha. Mas te juro que no foi assim. Realmente estava preocupado que nos ouvissem.
       Rachel olhou ao redor, horrorizada.
        - Cale-se! No querer que todos ouam!
       - V? - disse, com sorriso endiabrado. -  um assunto ntimo, verdade?
       Rachel entrecerrou os olhos, esforando-se para no sorrir.
       - J disse o que queria dizer.
       - Ento vem comigo - insistiu com voz rouca - Assim poderemos falar a ss.
       - OH, Clint. Est seguro de que realmente quer...?
       Interrompeu-a com um beijo que respondeu a pergunta com muita mais eloqncia que as palavras. Um beijo doce e maravilhoso, que provocou ccegas nas costas
e a deixou extasiada. Era exatamente a classe de beijo com que Rachel sempre tinha sonhado, e que nunca recebeu at que conheceu Clint Rafferty,  obvio.
       - Amo voc - sussurrou o homem contra sua bochecha - Por favor, acredite, Rachel. Amarei sempre.
       O timbre palpitante de sua voz, to carregado de emoo, foi suficiente para convencer Rachel. O modo como tremeram as mos quando a carcia foi uma prova
mais de que era sincero. O regozijo buliu no peito, tirando o flego, e se jogou nos braos de Clint.
       Os braos de Clint... Seus braos fortes e maravilhosos. Assim que se fecharam a seu redor, Rachel soube que esse era o lugar ao qual pertencia e onde ficaria.
       Para o resto de sua vida.
Antologia Trs Bodas e um Beijo - Catherine Anderson - Amor de Fantasia






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